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CUIDADO PARA NÃO SE DEIXAR CONTAMINAR PELA CRISE

 

Por Marcos Gabiroba 

 

Numa carta ao escritor Fernando Sabino, datada de 16 de novembro de 1942, Mário de Andrade então escritor modernista, paulista de nascimento lhe dizia com propriedade que “o conformismo é a cilada que o homem encontra quotidianamente em seu caminho”. A sentença parece ter sido proferida nos dias atuais, atualíssima, pois a cilada do conformismo impede o povo brasileiro de reagir contra as ideias mais abstrusas, a todo dia lançadas com modelos de experimentação de técnicos e governos despreparados. Isso gente, vem de longe, muito longe, mas se tornou permeável e visto a olhos nus de 2003 até os dias de hoje, especialmente o que se refere à corrupção.

Sempre fomos corruptos? É uma pergunta que não se cala. É correto nomear os tempos atuais de a Era da corrupção? Não cria a impressão de que tal fenômeno nunca tenha ocorrido? Fazer distinção entre uma época e outra requer levar em conta fatores como a empalidecida presença da justiça, o exemplo escancarado de lideranças imorais, a obsessão por querer garantir um futuro melhor, o desespero de não se saciar com nada por força do ter em detrimento do ser. Tudo isso como resultado dos tipos de uso da inteligência humana, capaz de nos tornar a criatura mais perigosa do planeta, acima das feras mais temidas no reino animal, pois, embora o homem não tenha sido privilegiado pela natureza com chifres pontiagudos, garras poderosas ou veneno, ele possui um cérebro cada vez mais apto a realizar operações relacionadas ao planejamento e execução de tarefas incomuns.

A mente passou a criar formas de lidar com os eventos diários, haja vista a inteligência ter avançado significativamente, chegando às descendências através da informação genética. O homem desenvolveu, além da habilidade tecnológica para a produção de ferramentas e a criação de técnicas de caça, também a mentira e o autoengano, a fim de mentir melhor, com maior convicção íntima. Obter favores sociais para o benefício pessoal em desfavor do gruo, evitando malandramente as correspondentes punições, é um exemplo da arquitetura psíquica do “Homo corruptus” tão antiga quão presente nos dias atuais, e pelo andar da carruagem... Não é ilusão imaginar que somos o suprassumo terrestre, acima de qualquer espécie? Porventura não mentimos, dissimulamos, acusamos sem ter certeza, falsificamos, tomamos o que não nos pertence, fraudamos, exploramos ingratamente, chantageamos, prometemos (até juramos!) em vão, ocultamos, sem falar na morte que impomos diretamente ou através da omissão sutil a qualquer ser vivente?

Abrir bem os olhos e constatar que somos corruptos é a oportunidade de se incomodar e modificar em si aquilo que se pretende em prol da própria evolução. Se você quer mudança, deseje-a em si mesmo (é claro que é devido cobrar melhor atuação de todos os sistemas sociais que regulam a vida cotidiana). Dê o passo decisivo, mas, antes, se imponha uma auto avaliação honesta, da qual faça emergir o retrato fiel da sua própria situação. Embora sejamos programados biologicamente para dar um jeitinho egoísta nas situações, é possível, inteligentemente, refletir e conhecer melhor o outro lado da moeda, que indica o fundamental altruísmo como peça chave para administrar as dificuldades de convivência que se avolumam constante e amargamente.

Aqui cabe outra advertência: Cuidado para não se deixar contaminar pela crise. Hoje em dia, na TV, no rádio, nos jornais e nas vias sociais, os assuntos abordados falam de um amontoado de mentiras, fraudes, corrupção, deslealdade, contravenções, crimes e muito mais. Com tantas denúncias de corrupção, verdadeiras ou falsas, corremos o risco de ser atacados por um grande desânimo. Por uma sensação de que não há mais ninguém honesto no mundo ou mesmo que os valores com os quais fomos criados e educados estão totalmente fora de moda hoje em dia. Corremos os risco de questionar se vale trabalhar tanto, ser honesto, ser leal e ético.

Não se deixe contaminar! Não se transforme numa pessoa relativista! Estamos vendo na imprensa notícias e fatos que denotam desvios de comportamento, e não aquilo que é certo ou justificável. Este é mais um motivo para pensar e agir exatamente na direção oposta. Seja mais ético, leal e honesto. No seu emprego, na sua empresa e na sua profissão, seja um ferrenho defensor dos valores mais elevados da conduta humana.

Vivemos num mundo onde corremos o risco do relativismo, em que nada é certo e nada é errado, que tudo depende das circunstâncias. Este é um momento de grande perigo porque começamos a achar normal e até justificar atitudes e comportamentos amorais, antiéticos e desonestos. Começamos a achar que o mundo é assim mesmo ou, ainda pior, passamos a dizer que somos brasileiros, descendentes dos portugueses que nos herdaram a desonestidade e que a ética, a moral e a honestidade estão mortas. Gente, não se deixe contaminar! Pense nisso.

Um abraço xará! Ótima semana. 






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