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EUSTÁQUIO LÚCIO FÉLIX, UM ALGUÉM SERVINDO PARA SERVIR!

 

 

 Por Marcos: Gabiroba

O ser humano é o único ser que busca independência e, ironicamente, ao mesmo tempo, precisa de apoio, do afeto e do carinho de alguém que lhe cuide bem”. (Autor desconhecido)

Conta-se que uma vez uma cadeira, já velha, vacilante, em péssimo estado de conservação. Sua pintura estava toda enrugada, gasta, a cor desbotada, em ruina e abandonada. Verdadeiramente um desastre! Não podia mais sustentar o próprio peso, que aumentava de ano para ano. Arranhões, sujeira, manchas, pés frágeis, pedaços quebrados. Não chegava mesmo a se lembrar de sua beleza primitiva. Uma camada de pintura, após outra, era toda a sua vida passada. Parecia tão mal que alguns sugeriram até cobri-la para não ferir a visão dos outros. Vez por outra, uma nova retocada na pintura, melhorava. Depois, novamente, rachava e descascava de alto a baixo, tornando-a pior que antes. Era preto em cima de vermelho, azul, verde, branco, amarelo camada sobre camada. Pobre cadeira! Como se lembrar de como era sob tantas camadas sucessivas de pintura?

Um belo dia, ela se viu entre as mãos de um marceneiro. Não sabia, nem imaginava como havia chegado lá. Havia sido triste ter chegado naquele lugar na pressa, aos empurrões e sacudidas no fundo de um caminhão. Mas, enfim, já estava naquele lugar. Não queria, porém, prestar atenção em nada. Afinal, já havia passado por muitos lugares mais ou menos idênticos. O marceneiro tomou-a pelas mãos e levou-a cuidadosamente. Havia algo no seu jeito que intrigou a cadeira. Aí, deixou passar e se resignou uma nova camada de pintura. E como doía! A cura, entretanto, estava nestas mãos que a machucavam.

Pacientemente, o marceneiro ia de canada em camada, cantarolando para ela: “Cadeira, o marceneiro te conhece, tua real beleza, ele a conhece, ele sabe que tu não és irreparável, senão pela graça de teu cuidado amável”. O canto acalmou um pouco a cadeira. Ela não sabia, porém, o que pensar. O que estava acontecendo? Por que parecia mais pesada? “Eu não aguento mais”, pensava ela, “parem com isso, cubram-me, deixem-me só”, lamentava o seu infortúnio. Dia após dia, contudo, o marceneiro perseverava.

Ah! Sim, por vezes dava alguns dias de repouso à cadeira. Que alivio sentia, ainda que estivesse terrivelmente consciente de que falava muito em seu caminho.

Dolorosamente, o marceneiro foi atravessando pouco a pouco, o preto, o vermelho, o azul, o verde, o branco. A cadeira percebeu, então, uma mudança no modo de agir dele. Sempre cheio de cuidados para evitar novos ferimentos que a magoasse.

Na última camada, o amarelo, quando este começou a sair, a cadeira, num primeiro respiro vital, teve uma ideia do que se encontrava por baixo da pintura. Não tinha mais pintura, mas madeira. Madeira maravilhosa. Começou, assim, a compreender a ação do marceneiro e porque seu tratamento havia mudado na derradeira camada: para não atingir a bela madeira que se revelava agora.

A cadeira esta apressada no desejo de se ver melhor. Pouco a pouco, a madeira apareceu plenamente. Que sensação de prazer e de glória! Que revelação! Ela cantava e dançava alegremente. Com esse sentimento, abandonou o marceneiro para viver livre da pintura, livre para ser ela mesma. Enfim, não tinha mesmo necessidade dele! A vida parecia como uma realidade nova, excitante, pela primeira vez depois de muito tempo abandonada.

Aos poucos, entretanto, os sinais de glória se dissiparam. Às vezes, passava pelo marceneiro e via que outras cadeiras, mesas, móveis se reconstruíam por suas mãos para reencontrar se esplendor natural. Pareciam, mesmo, refletir a beleza do próprio marceneiro. Era estranho constatar que não havia percebido, antes, como sua madeira era rústica e sem brilho.

Humildemente, voltou ao marceneiro e passou muito tempo com ele. Em lugar de ocupar-se com milhares de coisas, permanecia a seu lado. Num certo dia, ele lhe disse: “Penso que você está preparada”. Tomou-a, novamente, e a esfregou com uma lixa (e como machucava!). Só agora, porém, sabia que o marceneiro era conhecedor do seu trabalho. Ela a esfrega, pega outra lixa, mais fina ainda. E como foi bom desta vez! Jamais sentiu massagem tão agradável!

Em seguida, ungiu-a com uma estranha substância que realçou a cor da madeira e sua beleza, acrescentando-lhe um toque delicado, doce acetinado. Ela jamais se imaginou tão bela! Por orgulho, a cadeira chamou alguém que passava para sentar-se, mas quase se quebrou toda, esquecida da fragilidade de uma das suas pernas. Amedrontada, correu para o marceneiro que a fez esperar um momento, para fazê-la tomar consciência de sua própria fraqueza. Depois colou-a com solidez, comunicando-lhe um pouco de sua força.

Alguns dias, mais tarde, olhando-se, a cadeira percebeu alguns riscos, um pouco de poeira aqui, um ponto machucado ali. Foi tomada pelo pânico: um velho medo vindo à superfície, com a ideia de ser recoberta de pintura. Desesperada, agitou-se. Depois, parando, olhando longamente o marceneiro, veio-lhe a luz definitiva. Tinha necessidade dele não somente uma vez, mas para sempre. Havia sido restaurada e era através dele que poderia a crescer em beleza. Precisava ser desempoeirada por ele, limpa, lixada, para guardar sua solidez. Sim, já não era possível pensar em levar uma vida independente, mas também não precisava mais temer as camadas de pintura.

Ser útil, dar sentida à existência e contribuir para que o mundo melhore um pouco mais, implica, muitas vezes, abrir mão das vaidades e do individualismo”.

A crônica de hoje é uma homenagem a Eustáquio Lúcio Felix, um itabirano nato de ótimos princípios morais e intelectuais que, enquanto teve saúde sempre foi alguém que viveu “servindo para servir” como o marceneiro de cadeiras humanas. Tenho dito.

 

A crônica da semana vai ao ar pela Pontal FM 104.3 - A rádio que é a sua cara, todo sábado ás 13h. Com reprise aos domingos á 18h e 05 min.Ouça http://www.radiopontal.com.br/radiopontal.html 






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