BRASÍLIA – Uma vigília de apoiadores para tumultuar e até impedir uma prisão. Tornozeleira eletrônica danificada para dificultar localização. Casa próxima às embaixadas. Histórico de aliados condenados que deixaram o Brasil para escapar do cumprimento de pena.
Em sua ordem de prisão preventiva contra Jair Bolsonaro (PL), cumprida na manhã deste sábado (22/11) pela Polícia Federal (PF), o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes descreveu o que seria o roteiro de uma possível fuga do ex-presidente.
A prisão foi pedida pela PF, após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) convocar uma vigília em apoio ao pai em frente ao condomínio Solar de Brasília, onde o ex-presidente mora e estava em prisão domiciliar. Flávio fez a convocação na sexta-feira (21/11), por meio da rede social X.
A publicação ocorreu por volta das 17h de sexta. O filho 02 do ex-presidente anunciou que a vigília começaria às 19h deste sábado. “Vamos invocar o Senhor dos Exércitos! A oração é a verdadeira armadura do cristão”, diz trecho do post, acompanhado de vídeo de Flávio.
“Você vai lutar pelo seu país ou assistir tudo do celular aí do sofá da sua casa? Eu te convido para lutar com a gente. Nesse primeiro momento, a gente vai buscar o Senhor dos Exércitos”, diz o senador, filho do ex-presidente, no início do vídeo.
“Eu te convido para uma vigília que começa nesse sábado, dia 22 de novembro, a partir das sete da noite, aqui no balão do Jardim Botânico, na altura do condomínio do meu pai, o Solar de Brasília 2, pra orarmos pela saúde dele e pela volta da democracia no nosso país”, completa.
Agentes da PF viram que, em cinco horas, a publicação já tinha 62,1 mil visualizações e mais de 2 mil compartilhamentos nas redes sociais. Segundo a corporação, poderia indicar a presença de uma multidão, que poderia dificultar e até impedir uma prisão de Bolsonaro.
A PF enviou pedido de prisão preventiva ao STF por volta das 23h de sexta. Até então, era esperada uma ordem para o ex-presidente iniciar o cumprimento da pena de 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado, imposta pela Primeira Turma do STF em setembro.
Moraes disse que ‘vigília’ disfarçava outra intenção
Em sua decisão, que atendeu a PF neste sábado, Moraes escreveu que a “eventual realização da suposta ‘vigília’ configura altíssimo risco para a efetividade da prisão domiciliar decretada e põe em risco a ordem pública e a efetividade da lei penal”.
“O Senador da República faz uso do mesmo modus operandi, empregado pela organização criminosa que tentou um golpe de Estado em 2022, utilizando a metodologia da milícia digital para disseminar por múltiplos canais mensagens de ataque e ódio contra as instituições”, escreveu.
Moraes acrescentou que a convocação de apoiadores estava “disfarçada de vigília”, indicando “a repetição do modus operandi da organização criminosa no sentido da utilização de manifestações populares criminosas, com o objetivo de conseguir vantagens pessoais”.
Moraes lembrou que o deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), ex-chefe da Abin, condenado com o ex-presidente na mesma ação penal, deixou o Brasil em setembro, descumprindo ordem do STF. Ele está em Miami, nos Estados Unidos e não avisou a Câmara dos Deputados.
O ministro lembrou ainda que os deputados federais Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Carla Zambelli (PL-SP) também deixaram o país. Zambelli foi para a Itália após ser condenada por pagar um hacker para invadir sistemas do Conselho Nacional de Justiça. Eduardo é réu no STF.
Ministro citou proximidade das embaixadas
Alexandre de Moraes também citou a proximidade entre a casa de Jair Bolsonaro, na região administrativa do Jardim Botânico, e a Embaixada dos Estados Unidos, na ordem de prisão preventiva do ex-presidente motivada, por exemplo, por um risco de fuga.
O ministro escreveu que é “importante destacar” que o condomínio está a cerca de 13 quilômetros do Setor de Embaixadas Sul de Brasília, onde fica a Embaixada dos Estados Unidos, “em uma distância que pode ser percorrida em cerca de 15 minutos de carro”.
“Rememoro que o réu, conforme apurado nestes autos, planejou, durante a investigação que posteriormente resultou na sua condenação, a fuga para a embaixada da Argentina, por meio de solicitação de asilo político àquele país”, observou Moraes.
Tornozeleira eletrônica violada à 0h08
Moraes apontou ainda que o STF foi informado sobre uma ocorrência de violação da tornozeleira eletrônica de Bolsonaro à 0h08 deste sábado. Para Moraes, a informação “constata a intenção do condenado de romper a tornozeleira eletrônica para garantir êxito em sua fuga, facilitada pela confusão” causada pela vigília convocada por Flávio Bolsonaro.
A tentativa de violação do equipamento de monitoramento eletrônico foi comunicada pelo Centro de Integração de Monitoração Integrada do Distrito Federal. Agentes do DF foram à casa de Bolsonaro imediatamente e constataram que houve tentativa de arrancar a carcaça do aparelho.
Os agentes de segurança do Distrito Federal chegaram à casa do ex-presidente por volta da 1h, antes do cumprimento da prisão preventiva do ex-presidente. Eles trocaram o equipamento danificado por um outro, em funcionamento. O antigo aparelho foi levado para perícia na PF.
Fonte: O Tempo