O padre Jefferson Cruz Veronês fez um desabafo na Missa do último domingo (25) na matriz São José Operário, em João Monlevade. Durante os avisos paroquiais, ele informou que as Missas de Bênçãos realizadas às quintas-feiras serão transferidas para a matriz Nossa Senhora de Fatima, no bairro Vila Tanque. A razão seriam os graves problemas estruturais enfrentados pelo templo histórico do bairro Centro Industrial.
O sacerdote não poupou palavras para escancarar a fragilidade da edificação: “A igreja São José está caindo”. Na semana passada, o presbítero já havia alertado aos pais para que não deixassem seus filhos brincarem num dos segmentos da escadaria externa da igreja, que está interditado pelo risco de desabamento. Há um vazio aberto abaixo do piso, e o calçamento de pedras se converteu numa mera “casca” a cobrir o oco. Segundo o padre Jefferson Veronês, na última medição realizada pela Defesa Civil, uma régua de um metro foi introduzida no vão, mas não se achou o seu leito.
Outro problema é a fiação elétrica da igreja, que é muito antiga e, conforme o padre Jefferson, é revestida com panos. Isso aumenta o risco de curto-circuito e incêndio: “A igreja só não pegou fogo porque São José não deixou”. O sacerdote convocou os fiéis a demandarem a ação do poder público para que salvem a igreja do Centro Industrial: “Vocês cobrem dos políticos. Daqui a pouco, teremos de fechar a igreja completamente”.
Luta pela restauração
Administrador paroquial desde fevereiro de 2020, o padre Jefferson Cruz Veronês lidera desde então uma verdadeira cruzada para preservar a matriz São José Operário. Foram vários apelos públicos por intervenções de restauração e conservação do templo, o mais conhecido símbolo de João Monlevade.
O terreno aos fundos da igreja está cedendo e levando umidade para as suas paredes, o que favorece o aparecimento de infiltrações indisfarçáveis e grandes colunas de mofo. Um dos quadros em alto-relevo da Via-Sacra está comprometido e precisará passar por restauração. Outro problema é que a movimentação do solo está movendo o piso dentro da matriz, na rampa de acesso lateral e na escadaria. Num dos braços da edificação, o “degrau” formado já é o suficiente para que uma pessoa tropece. O padre destaca: “O problema não se resolve com uma simples pintura”. A Prefeitura realizou uma obra de cobertura de parte da terra nua nos fundos da igreja, mas que foi insuficiente para conter a degradação da estrutura. Em novembro do ano passado, ocorreu uma articulação entre Prefeitura, Câmara e Fundação Casa de Cultura. O objetivo era buscar, de forma coletiva, a preservação do templo.
Prefeitura diz que acompanha o caso de forma responsável e técnica
Após questionamentos do A Notícia, a Prefeitura de João Monlevade informa que acompanha com atenção a situação da Igreja São José Operário, de forma responsável e técnica. O Executivo esclarece os questionamentos levantados a partir da declaração feita pelo padre Jefferson, durante a Missa do último domingo (25). Confira:
“Diante da repercussão das notícias nesta semana, a Defesa Civil Municipal retornou ao local na manhã dessa quinta-feira (29) para verificar as condições estruturais e a segurança da edificação, procedimento semelhante ao realizado em 7 de novembro de 2025, quando a situação foi inicialmente debatida e amplamente noticiada.
De acordo com os agentes e técnicos da Defesa Civil, não foram identificadas mudanças nas condições gerais da igreja desde a vistoria anterior. Assim como apontado no primeiro relatório técnico, a edificação apresenta patologias relevantes, sobretudo relacionadas a infiltrações e desgaste dos pisos externos, porém não há risco de colapso global da estrutura, mantendo-se seguras as atividades no interior do templo.
Desde a primeira vistoria, um dos corredores externos da igreja permanece interditado, por demandar a execução urgente de ações preventivas de drenagem e impermeabilização. Conforme o relatório técnico, os pisos externos em pedra apresentam fissuras, rejuntes abertos e pontos de acúmulo permanente de água, o que provoca o direcionamento da umidade para o embasamento da edificação.
A Defesa Civil destaca que, para a verificação precisa da real dimensão do problema e a correta execução das intervenções necessárias, é indispensável a abertura completa do local, com a retirada das pedras do piso externo. Tal procedimento deverá ser realizado por empresa especializada e não poderá ser realizado durante o período chuvoso, devido ao risco de agravamento do quadro, uma vez que a exposição do solo pode intensificar processos de erosão causados pelo acúmulo de água. Ressalta-se que o relatório técnico foi emitido em novembro de 2025 e que o período chuvoso na região se estende, em média, até o mês de março, razão pela qual a intervenção ainda não foi executada.
Outro ponto relevante é que, por se tratar de um bem tombado, qualquer intervenção – inclusive corretiva – depende de autorização expressa do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural, conforme determina a legislação vigente”.
Tombamento não implica obrigação
A Prefeitura também esclarece que “o tombamento de um imóvel não implica, automaticamente, a obrigação do Município de arcar com as despesas de manutenção, uma vez que a Igreja São José Operário é um bem privado, pertencente à Diocese de Itabira-Coronel Fabriciano. De acordo com o artigo 19 do Decreto-Lei nº 25/1937, a responsabilidade primária pela conservação e reparação de imóveis tombados é do proprietário, podendo o poder público contribuir quando comprovada a incapacidade financeira do proprietário, ou quando o governo possuir recursos disponíveis para custear as obras necessárias.
Vale ressaltar que a Prefeitura de João Monlevade, por meio da Fundação Casa de Cultura, disponibilizou mais de R$92 mil para as obras de restauração da Igreja São José Operário, no ano de 2022, recursos provenientes do Fundo de Patrimônio Cultural. Na ocasião foram executados serviços para conter infiltrações, mofos, danos à pintura, trincados, desníveis de solo, buracos, afundamento do piso e danos na rede elétrica, entre outros.
Por fim, a Administração Municipal reafirma que está acompanhando o caso de forma responsável e técnica. Após o envio deste segundo relatório aos interessados, a Prefeitura irá agendar uma reunião com a Diocese, proprietária do imóvel, e com o Conselho Municipal do Patrimônio Cultural para discutir soluções conjuntas, que envolvam Câmara Municipal, iniciativa privada, entidades e sociedade civil organizada, em busca de soluções para viabilizar a manutenção e preservação deste importante patrimônio histórico e cultural de João Monlevade”.
História
Projetada pelo arquiteto tchecoslovaco Yaro Burian, a igreja São José Operário foi construída pela então Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira (CSBM) entre 1942 e 1946, sendo a mais antiga do município. Ela é tida como a única em todo o mundo em forma de letra “V”, remetendo a Jesus Cristo como “Vereda, Verdade e Vida” (João 14, 6) e à Vitória das nações aliadas na Segunda Grande Guerra (1939-1945).
O templo é visível inclusive para os passageiros da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), e ao longo das décadas, consolidou-se como o mais representativo cartão-postal de João Monlevade, testemunhando os principais acontecimentos da história da cidade. A festa de São José, celebrada entre os dias 10 e 19 de março, está entre as mais tradicionais celebrações religiosas da cidade.
Fonte: A Noticia Regional