Muito além do bem-estar e da saúde, as corridas de rua consolidaram-se como um robusto modelo de negócio com impacto direto na economia urbana. O setor movimenta uma extensa cadeia produtiva: do mercado de inscrições ao setor de serviços – como hotelaria, transporte e gastronomia –, o fluxo de atletas transforma o calendário das cidades em oportunidades lucrativas.
A alta procura pelas pistas é confirmada pelos números. Um levantamento da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (Abraceo) indica que, em Minas Gerais, o volume de eventos saltou 58% em um ano: de 274 provas em 2024 para 433 em 2025. Para quem atua nos bastidores, esse crescimento é visível a cada novo lote de inscrições.
“As corridas vêm crescendo ano após ano, e as pessoas estão cada vez mais atraídas. Mesmo que seja uma estreia, se o tema for interessante, o engajamento é imediato. Um exemplo é a Corrida da Rotam: a primeira edição teve 9.000 inscritos, e a segunda saltou para 16 mil”, destaca Bruno Khouri, CEO e fundador da TBH Esportes, uma das principais organizadoras de Minas Gerais.
O sucesso de público exige uma complexa engenharia logística. Khouri explica que o planejamento começa muito antes da buzina de largada. “São de um a dois meses de planejamento invisível ao público, seguidos por pelo menos três meses de inscrições abertas e um mês de fechamento pós-evento. Dentro de um padrão ideal, uma única prova demanda seis meses de trabalho contínuo”, revela o executivo.
O “atleta-turista” e a rede hoteleira
A rede hoteleira é um dos setores que mais celebram o calendário de provas. Jeferson Munhoz, diretor da HotelCare, revela que a taxa de ocupação em períodos de grandes eventos esportivos oscila entre 75% e 95%. “Em períodos de baixa demanda, um evento esportivo é extremamente proveitoso, pois eleva a ocupação a patamares de alta temporada”, explica.
Para quem viaja com foco na competição, a localização é estratégica. O consultor de investimentos Adilho José de Carvalho, de 61 anos, exemplifica o perfil do “atleta-turista”. Recentemente, ele esteve em São Paulo para a centésima edição da São Silvestre.
“Busco sempre viajar em grupo para que um incentive o outro. Na São Silvestre, me hospedei a menos de 2 km da largada. Os hotéis já se adaptam e servem o café da manhã às 5h30 para nos atender”, relata. Para Carvalho, o esporte abre portas: “A gente se torna turista. Aproveito para curtir a cidade, e agora meu plano é uma prova internacional”.
Foco e tecnologia nos bastidores
A engrenagem das corridas também impulsiona profissionais liberais, como os fotógrafos. Estrategicamente posicionados, eles são responsáveis por eternizar o esforço de cada atleta, o que exige altos investimentos. “Meu equipamento equivale ao valor de um bom carro usado”, revela o fotógrafo Samuel Ramos.
A preparação de Ramos inclui mapear o percurso com antecedência. Em provas de grande porte, as chamadas “VIPs”, ele chega a fazer de 8.000 a 12 mil cliques. Segundo o fotógrafo, a conversão de vendas das fotos é sustentada por três pilares: qualidade técnica, posicionamento estratégico na pista e análise da concorrência.
Seja no asfalto, nos bastidores da organização ou na recepção dos hotéis, a corrida de rua provou que ultrapassou a linha de chegada do esporte. Hoje, ela se consolida como um dos pilares mais dinâmicos da economia de serviços, provando que o fôlego dos corredores é o mesmo que ajuda a impulsionar o desenvolvimento das cidades mineiras.
Fonte: O Tempo