Marcello Ambrósio
Nos últimos anos, a saúde mental dos trabalhadores brasileiros tem se tornado uma grande preocupação. Em 2025, mais de 500 mil pessoas precisaram se afastar do trabalho por causa de transtornos mentais, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Esse foi o segundo ano seguido em que o país bateu recorde nesse tipo de afastamento.
O levantamento mostra que mais de duas mil profissões foram afetadas. Entre as mais atingidas estão: vendedor do comércio varejista, faxineiro, professor, enfermeiro, auxiliar de escritório, assistente administrativo e operário de linha de produção. São, em sua maioria, trabalhadores que lidam diretamente com o público, enfrentam longas jornadas e dependem do trabalho contínuo para garantir renda.
De acordo com especialistas, essas profissões têm características em comum, como contratos instáveis, pressão por metas, excesso de trabalho e pouca autonomia. Além disso, muitos profissionais vivem com medo do desemprego, o que aumenta a insegurança e o estresse no dia a dia.
O procurador do Ministério Público do Trabalho, Raymundo Lima Ribeiro Júnior, explica que a combinação entre sobrecarga e contratos precários contribui para o adoecimento mental. Em alguns casos, empresas chegam a controlar até o tempo que o funcionário pode usar o banheiro ou beber água, o que aumenta ainda mais a pressão.
A auditora fiscal Odete Cristina Pereira Reis destaca que a falta de autonomia também é um fator importante. Quando o trabalhador não pode tomar decisões, usar suas habilidades ou se desenvolver, ele passa a se sentir desvalorizado, o que pode levar ao sofrimento psicológico.
Entre os principais motivos que explicam esse cenário, estão:
- Contratos temporários e alta rotatividade;
- Medo constante de perder o emprego;
- Cobrança excessiva por metas e resultados;
- Jornadas longas e equipes reduzidas;
- Exposição à violência em algumas profissões.
Em 2025, o Brasil registrou cerca de 4 milhões de afastamentos por doença, sendo que 546 mil foram por problemas de saúde mental, um aumento de 15% em relação ao ano anterior. Os transtornos mais comuns foram ansiedade e depressão, que lideraram os pedidos de licença.
Além do impacto na vida dos trabalhadores, os afastamentos também geram prejuízos econômicos. Em média, cada pessoa ficou cerca de três meses afastada, recebendo aproximadamente R$ 2.500 por mês. Com isso, os gastos podem ter chegado a quase R$ 4 bilhões no ano.
A maioria das licenças foi concedida a mulheres, que representaram quase 63% dos casos. Mesmo assim, elas continuam recebendo, em média, salários menores que os dos homens.
Especialistas alertam que a saúde mental já deixou de ser apenas uma questão individual e passou a ser um problema social e econômico. Segundo a Organização Mundial da Saúde, milhões de dias de trabalho são perdidos todos os anos no mundo por causa da depressão e da ansiedade.
Diante desse cenário, o governo anunciou mudanças na Norma Regulamentadora nº 1, que trata da segurança no trabalho, para incluir os riscos psicológicos. A ideia é fiscalizar empresas que impõem metas abusivas, jornadas excessivas e ambientes tóxicos. As multas podem chegar a R$ 6 mil por funcionário. No entanto, a medida foi adiada e ainda enfrenta resistência.
Para especialistas, é urgente que empresas e governos adotem ações concretas para proteger a saúde mental dos trabalhadores. Cuidar do bem-estar emocional não é apenas uma questão de saúde, mas também de dignidade, qualidade de vida e desenvolvimento do país.
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