Por Marcello Ambrósio
Quatro anos após o início da guerra na Ucrânia, brasileiros ainda seguem se alistando para lutar no conflito. A maioria é atraída por promessas de altos salários, vídeos de recrutamento nas redes sociais e pela ideia de aventura. Mas, segundo relatos de ex-combatentes, a realidade no campo de batalha é bem diferente do que foi divulgado.
O Fantástico localizou ex-combatentes baianos que chegaram a enfrentar o exército russo e hoje carregam histórias marcadas por arrependimento, traumas, perdas e frustrações.
Um deles é João Victor de Jesus Teixeira, conhecido pelo codinome “Arcanjo”, que chegou a gravar vídeos incentivando outros brasileiros a se alistarem. Hoje, ele admite o erro.
“Eu me arrependo muito de ter ido e de ter chamado pessoas. Vi muitos amigos morrerem. Ali percebi que a guerra não era para mim”, contou.
Outro brasileiro, o produtor musical Marcos, disse que foi atraído pela promessa de um salário de “50 mil”, acreditando que o valor fosse em reais. Na prática, o pagamento era em grívnias, moeda local da Ucrânia, o que equivale a pouco mais de R$ 5 mil.
“O que vem na cabeça é real. Falam ‘50 mil’ e você acredita”, relatou.
Sem qualquer experiência militar, Redney, também baiano, decidiu ir para a guerra em busca de adrenalina e pela frustração de não ter conseguido ingressar no Exército brasileiro.
“Nunca servi o Exército. Tudo o que sei sobre guerrilha aprendi na Ucrânia”, afirmou.
O plano inicial era ficar 30 dias, mas ele acabou permanecendo 172 dias no front. Nesse período, enfrentou bombardeios, chegou a ficar a apenas 100 metros das tropas russas, perdeu 17 colegas e foi ferido por uma granada, ficando temporariamente paralisado.
Além dos combates, ex-combatentes relatam fome, abandono e até tortura contra quem tenta fugir da linha de frente.
“Quem tenta fugir, se for pego, é preso e torturado”, disse um brasileiro que conseguiu escapar.
Outro contou que precisou enfrentar soldados ucranianos durante a fuga. Ao retornar ao Brasil, relatou ter perdido 28 quilos e passado dias sem alimentação adequada.
“Cheguei a ficar três dias só com o tempero do macarrão instantâneo.”
De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, desde o início da guerra, 19 brasileiros morreram na Ucrânia e outros 44 estão desaparecidos. Famílias no Brasil vivem meses sem notícias e sob constante angústia.
“Pode estar morto. É uma realidade que eu tento enfrentar”, disse a esposa de um brasileiro desaparecido desde novembro.
Em nota, o Itamaraty informou que acompanha os casos e presta assistência às famílias. Já a Embaixada da Ucrânia no Brasil afirmou que não recruta brasileiros e que quem se alista tem os mesmos direitos e deveres de um cidadão ucraniano em serviço militar.
Mesmo com o avanço do conflito e a retomada dos bombardeios, ainda há brasileiros na linha de frente. Um deles, Marcelo, que hoje atua nas forças especiais e de inteligência da Ucrânia, resumiu a rotina em poucas palavras:
“Tentando sobreviver.”
De volta ao Brasil, ex-combatentes tentam reconstruir a vida, mas admitem que as marcas da guerra continuam presentes.
“Talvez com a filha por perto as coisas mudem um pouco. Ela deixa o dia mais leve”, disse um deles.
