Por Marcello Ambrósio
O racismo segue presente no cotidiano das grandes cidades brasileiras e se manifesta, principalmente, em espaços de consumo e de trabalho. É o que mostra a pesquisa Viver nas Cidades: Relações Raciais, realizada pelo Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com a Ipsos-Ipec, em dez capitais do país.
Segundo o levantamento, 57% dos entrevistados afirmam perceber tratamento desigual entre pessoas negras e brancas em shoppings, lojas, mercados, bares, restaurantes e outros estabelecimentos comerciais. Em seguida aparecem o ambiente de trabalho (44%) e ruas, parques e espaços públicos de convivência (31%).
A pesquisa ouviu 3.500 pessoas, com 16 anos ou mais, em Belém, Belo Horizonte, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Para os pesquisadores, os dados revelam que o preconceito se torna mais evidente em locais de grande circulação e onde há encontro entre diferentes classes sociais.
Salvador e Belém lideram o ranking de percepção de discriminação em estabelecimentos comerciais, enquanto Manaus apresentou o menor índice. Ainda assim, os resultados mostram um padrão semelhante entre as capitais. Apenas 10% dos entrevistados afirmaram não perceber diferença no tratamento entre negros e brancos.
O estudo também aponta que escolas, universidades, transporte público e serviços de saúde aparecem entre os ambientes onde o racismo é identificado, ainda que com percentuais menores. Ambientes esportivos, religiosos e até o espaço familiar também foram citados.
Quando questionados sobre como combater o racismo, os entrevistados destacaram principalmente o aumento das punições para crimes de injúria racial e racismo e o fortalecimento da educação antirracista nas escolas. Apesar de os estabelecimentos comerciais liderarem os relatos de discriminação, apenas uma parcela menor da população vê o posicionamento de empresas e marcas como uma medida efetiva de enfrentamento do problema.
O levantamento revela ainda divergências entre brancos e negros sobre políticas afirmativas, como as cotas raciais, mas mostra um consenso crescente de que o racismo é um problema estrutural das cidades e precisa ser enfrentado com políticas públicas específicas.
Para o Instituto Cidades Sustentáveis, os dados reforçam a desigualdade histórica vivida pela população negra, que enfrenta mais dificuldades de acesso à educação, renda, serviços básicos e oportunidades. Segundo os pesquisadores, o enfrentamento do racismo passa não apenas por punições, mas por mudanças estruturais, com educação, políticas de inclusão e compromisso efetivo do poder público e da sociedade.

(Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas)