Por Marcello Ambrósio
O aumento de notificações de pancreatite em usuários de canetas emagrecedoras levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a emitir um alerta sobre os riscos associados ao uso desses medicamentos, especialmente fora das indicações médicas e sem acompanhamento profissional.
Atualmente, a Anvisa investiga seis mortes suspeitas e mais de 200 registros de problemas no pâncreas em pacientes que utilizaram medicamentos como Ozempic, Saxenda e Mounjaro, indicados para tratamento de obesidade e diabetes.
Embora os casos ainda sejam considerados suspeitos, sem comprovação direta de causa e efeito, o crescimento das notificações chamou a atenção das autoridades sanitárias e da comunidade médica.
O que pode estar por trás dos casos investigados
Especialistas apontam que vários fatores podem estar relacionados aos episódios de pancreatite observados:
- Perfil dos pacientes: pessoas com obesidade e diabetes já apresentam maior risco para doenças pancreáticas e biliares.
- Risco descrito em bula: os medicamentos alertam para a possibilidade de formação de cálculos na vesícula, que podem desencadear pancreatite.
- Perda de peso acelerada: a redução rápida de peso, comum com o uso das canetas, favorece a formação de cálculos biliares.
- Alterações no sistema digestivo: esses remédios retardam o esvaziamento do estômago e interferem no metabolismo dos ácidos biliares, o que pode impactar o funcionamento do pâncreas.
- Uso sem indicação médica: doses inadequadas e falta de acompanhamento dificultam a identificação precoce de efeitos adversos.
- Circulação de canetas falsificadas: produtos irregulares impedem saber qual substância e dose estão sendo aplicadas, ampliando os riscos.
Casos semelhantes também chamaram atenção no exterior. No Reino Unido, autoridades sanitárias investigam 19 mortes associadas ao uso dessas canetas, incluindo episódios raros, porém graves, de pancreatite necrosante.
Especialistas reforçam cautela
A pancreatite é uma inflamação do pâncreas — órgão essencial para a digestão e o controle da glicose — e pode ser grave. No Brasil, as causas mais comuns continuam sendo o consumo excessivo de álcool e a presença de cálculos na vesícula biliar.
“Trata-se de uma doença potencialmente grave. No Brasil, registramos cerca de 200 mil casos por ano, muito em função do cenário de obesidade e diabetes”, explica Nelton Dornellas, endocrinologista e presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
Segundo ele, a perda rápida de peso e as alterações metabólicas provocadas pelos medicamentos criam um ambiente em que diferentes fatores de risco se somam, aumentando a vulnerabilidade de alguns pacientes.
Uso seguro e orientação da Anvisa
Diante de qualquer suspeita de inflamação no pâncreas, a Anvisa orienta a suspensão imediata do medicamento e reforça que as canetas devem ser utilizadas exclusivamente dentro das indicações aprovadas em bula, sempre com prescrição e acompanhamento médico.
Outro ponto de atenção é o mercado ilegal. A circulação de canetas falsificadas preocupa especialistas, já que não há controle sobre a substância ou a dosagem aplicada.
“Quando falamos de produtos falsificados, não sabemos o que está sendo injetado nem em que quantidade. Isso é ainda mais perigoso para quem tem histórico de problemas no pâncreas”, alerta Dornellas.
Para médicos e autoridades sanitárias, a principal recomendação é clara: evitar a automedicação, desconfiar de produtos vendidos fora de farmácias e procurar sempre orientação profissional antes de iniciar qualquer tratamento para emagrecimento.
