Por Marcello Ambrósio
O Brasil voltou a registrar, em 2025, um desempenho preocupante no Índice de Percepção da Corrupção (IPC), divulgado pela Transparência Internacional. O país alcançou 35 pontos em uma escala que vai de 0 a 100 — quanto menor a nota, pior a percepção — mantendo a segunda pior marca de toda a série histórica e ocupando a 107ª posição entre 182 países e territórios avaliados.
Apesar de um aumento de um ponto em relação a 2024, quando a nota foi 34, a própria organização afirma que a variação é estatisticamente irrelevante. Na prática, o resultado indica estagnação no combate à corrupção no setor público brasileiro.
Como funciona o índice
Criado em 1995, o IPC é considerado o principal ranking internacional sobre corrupção. Ele não contabiliza casos específicos nem investigações em andamento. O levantamento se baseia na percepção de especialistas, pesquisadores e executivos, reunindo dados de fontes independentes que acompanham governança e integridade pública. No caso do Brasil, foram utilizados oito indicadores, o mesmo número do ano anterior.
Brasil abaixo da média mundial
Com 35 pontos, o país ficou abaixo tanto da média global quanto da média das Américas, ambas fixadas em 42 pontos. No topo do ranking aparecem Dinamarca, Finlândia e Cingapura. Já as piores posições são ocupadas por países como Somália, Sudão do Sul e Venezuela.
O Brasil aparece próximo de nações como Sri Lanka, Argentina, Ucrânia e Indonésia. Dois países estrearam no ranking nesta edição — Brunei e Belize — e ambos ficaram melhor colocados que o Brasil.
Avanços pontuais, problemas estruturais
Segundo o diretor executivo da Transparência Internacional – Brasil, Bruno Brandão, 2025 foi marcado por um cenário contraditório. De um lado, o país ganhou visibilidade internacional pela atuação do Supremo Tribunal Federal na responsabilização de envolvidos em ataques à democracia. De outro, chamou atenção negativa por escândalos de corrupção em larga escala.
Um relatório complementar, chamado Retrospectiva 2025, aponta um agravamento da infiltração do crime organizado no Estado, principalmente por meio do sistema financeiro e da advocacia. Ao mesmo tempo, destaca avanços no uso de inteligência financeira para desmontar esquemas complexos de lavagem de dinheiro.
Casos e críticas
O documento cita operações de grande impacto realizadas ao longo do ano, envolvendo desde suspeitas de venda de sentenças no Judiciário até fraudes em emendas parlamentares, benefícios do INSS e no sistema bancário. Também há críticas à atuação do governo federal diante do escândalo do INSS, com menção à demora na resposta e à condução política do caso.
Outro ponto de alerta é o crescimento das emendas parlamentares, que ultrapassaram R$ 60 bilhões no orçamento de 2026, o que, segundo a entidade, reforça riscos de falta de transparência e captura do orçamento público.
Caminhos possíveis
Apesar do diagnóstico duro, a Transparência Internacional aponta oportunidades para retomar uma agenda anticorrupção, como a mobilização social contra propostas que enfraquecem mecanismos de controle e o perfil reformista de lideranças no comando dos tribunais superiores. Entre as sugestões está a criação de um código de conduta para a cúpula do sistema de Justiça.
