Por Marcello Ambrósio
A possível redução da jornada de trabalho no Brasil, com o fim da escala 6×1 e adoção do modelo 5×2, pode trazer impactos negativos para a economia e para o mercado de trabalho. É o que aponta um estudo do Centro de Liderança Pública (CLP), divulgado em meio ao avanço do debate no Congresso Nacional.
Segundo o levantamento, a diminuição da carga semanal de 44 para 40 horas, sem redução proporcional de salários, pode resultar na perda de até 640 mil empregos em todo o país. O principal motivo seria a baixa produtividade estrutural da economia brasileira, que limita a capacidade das empresas de absorver os custos adicionais.
Comércio lidera possíveis perdas
O setor mais afetado seria o comércio, onde a produtividade dos trabalhadores pode cair cerca de 1,3%, o que, na prática, representaria a eliminação de aproximadamente 164 mil postos de trabalho.
Na sequência aparecem a construção civil, com risco de perda de cerca de 45 mil vagas, e a agropecuária, com impacto estimado em 28 mil empregos.
Custo do trabalho em alta
Especialistas alertam que a proposta de reduzir a jornada sem corte salarial tende a encarecer o custo do trabalho, em um cenário já marcado por baixo crescimento da produtividade.
“O custo do trabalho aumenta de forma abrupta quando se reduz a carga horária mantendo o salário. Com uma produtividade estruturalmente baixa, isso gera um choque negativo, que acaba afetando o crescimento do PIB”, explica Gabriel Barros, economista-chefe da ARX.
Problema estrutural
Dados internacionais reforçam o diagnóstico. Entre 2016 e 2025, a produtividade média anual no mundo cresceu cerca de 1,5%, enquanto no Brasil o avanço ficou em torno de 0,5%, segundo dados compilados pelo CEIC Data.
Para Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, mudanças na escala de trabalho são possíveis, mas exigem cautela. “Os estudos mostram perda de PIB potencial associada a esse tipo de alteração, se ela não vier acompanhada de ganhos reais de eficiência”, afirma.
Falta de mão de obra qualificada
Outro entrave apontado é a escassez de trabalhadores qualificados. Uma pesquisa da CNI indica que, nos últimos cinco anos, o número de indústrias que relatam dificuldade para contratar mão de obra adequada quase quintuplicou, passando de 5% para 23%.
Segundo a confederação, essa falta de qualificação reduz a competitividade das empresas e obriga o setor produtivo a investir cada vez mais em requalificação profissional.
Para representantes da indústria, o debate precisa ir além dos números. “O Brasil não pode mais tratar o trabalhador de forma genérica, por decreto, sem considerar os impactos diretos e indiretos sobre a economia”, afirmou Sérgio Longen, presidente da Fiems.
O estudo reforça que qualquer mudança no modelo de jornada de trabalho precisará vir acompanhada de políticas de aumento de produtividade, qualificação profissional e diálogo entre governo, empresas e trabalhadores.
