Por Marcello Ambrósio
Um grupo de pesquisadores brasileiros, liderado pelo professor Bruno Gualano, da Faculdade de Medicina da USP, publicou no British Journal of Sports Medicine a maior revisão sistemática já feita sobre o desempenho físico de pessoas trans. O estudo cai como uma bomba no debate político atual, especialmente com as pressões por banimentos em competições internacionais.
O que a ciência realmente diz (e o que não diz)
A pesquisa analisou 52 estudos envolvendo quase 6.500 participantes. O objetivo foi comparar marcadores físicos entre mulheres trans, homens trans, mulheres cis e homens cis.
As descobertas principais:
- Massa Magra vs. Força: De um a três anos após o início da terapia hormonal, as mulheres trans possuem, sim, mais massa magra que as mulheres cis. No entanto — e aqui está o ponto chave — isso não se traduz em maior força.
- Capacidade Física Igualada: Indicadores como força nos membros superiores e inferiores, além do consumo máximo de oxigênio (fôlego), não apresentaram diferenças significativas entre mulheres trans e cis.
- Ausência de Vantagem Universal: O estudo refuta a ideia de que existe uma “vantagem automática e universal” das atletas trans. O desempenho esportivo depende de técnica, tática e psicologia, e não apenas de um único marcador físico.
O “Buraco” nas evidências de elite
Um ponto de extrema honestidade do professor Gualano é sobre o esporte de alto rendimento:
- Falta de dados: Não existem estudos robustos sobre mulheres trans na elite do esporte simplesmente porque elas são uma raridade absoluta nessas competições (menos de 0,001% dos atletas olímpicos).
- Contra o banimento total: O pesquisador argumenta que banir mulheres trans de tudo — até de esportes como xadrez ou competições amadoras — não tem base científica. O ideal seria uma análise caso a caso, modalidade por modalidade.
Conclusão: Ciência contra o preconceito
O estudo conclui que usar o argumento da “vantagem física” para excluir mulheres trans do esporte universitário ou amador é, atualmente, uma premissa falsa perante as evidências. A discussão sobre o “alto nível” (como MMA ou boxe) é legítima, mas precisa de estudos que ainda não existem.
Destaque: O próprio Comitê Olímpico Internacional (COI) está revisando suas políticas com base em avaliações técnicas e deve divulgar novas diretrizes em breve, o que torna esse estudo brasileiro uma peça fundamental para o futuro do esporte.
