Por Marcello Ambrósio
A polilaminina tornou-se um dos assuntos mais comentados nas redes sociais nos últimos dias, impulsionada por vídeos de pacientes com lesões medulares recuperando movimentos e realizando atividades físicas. O caso de Bruno Drummond, que voltou a fazer musculação após sofrer um acidente grave em 2018 e receber a aplicação da substância, gerou uma onda de otimismo no Instagram e TikTok. No entanto, a comunidade científica e a própria líder da pesquisa, Tatiana Sampaio, alertam que, embora os resultados sejam animadores, a substância ainda é uma promessa de tratamento e não uma solução definitiva comprovada.
A polilaminina é um composto biológico recriado em laboratório a partir da laminina, uma proteína naturalmente presente no corpo humano, especialmente durante o desenvolvimento embrionário, onde auxilia na organização dos tecidos. Na prática, quando aplicada na medula espinhal logo após um trauma (fase aguda), a substância funciona como uma “ponte microscópica”. Ela cria um suporte que ajuda os axônios — os prolongamentos dos neurônios que foram rompidos — a crescerem novamente através da cicatriz da lesão, tentando restabelecer a comunicação entre o cérebro e os membros.
Apesar do entusiasmo digital, especialistas pedem paciência com o tempo da ciência. Um estudo preliminar com oito pacientes mostrou que 75% deles tiveram melhora, uma taxa significativamente maior que os 30% que costumam se recuperar naturalmente com reabilitação convencional. Contudo, esses dados ainda não passaram pela “revisão por pares” (análise de cientistas independentes) nem por ensaios clínicos de larga escala. Atualmente, a Anvisa autorizou o início da Fase 1 da pesquisa, que focará primeiro na segurança do composto antes de atestar sua eficácia total.
Outro ponto importante destacado por médicos é que a polilaminina tem mostrado resultados apenas em casos de lesões agudas, ocorridas em até 72 horas após o trauma. Não há, até o momento, evidência científica de que a substância funcione para lesões crônicas — aquelas que já têm meses ou anos de existência e onde já se formou uma cicatriz rígida na medula. O uso atual por alguns pacientes ocorre por meio de decisões judiciais (uso compassivo), mas essas aplicações não fazem parte do protocolo oficial de pesquisa, o que dificulta o acompanhamento científico padronizado dos resultados.
A pesquisa recebeu um investimento de R$ 100 milhões do laboratório nacional Cristália para ser transformada em medicamento oficial. Enquanto o processo regulatório avança, com previsão de conclusão das fases de teste até 2028, neurocirurgiões reforçam que a fisioterapia continua sendo o pilar essencial de qualquer recuperação. A ciência brasileira celebra o avanço, mas a recomendação geral é evitar falsas expectativas: a polilaminina é um passo gigantesco, mas ainda precisa cumprir todos os ritos de segurança para chegar com responsabilidade ao SUS e aos hospitais.
