Por Marcello Ambrósio
Uma investigação conduzida pela BBC News trouxe à tona relatos alarmantes de mais de 250 pessoas no Reino Unido cujas vidas foram arruinadas por medicamentos da família dos agonistas da dopamina. Prescritos principalmente para o Mal de Parkinson e para a Síndrome das Pernas Inquietas (SPI), esses remédios estão sendo associados a comportamentos impulsivos severos, incluindo vício em jogos de azar, hipersexualidade e compras compulsivas.
O caso de Emma é emblemático. Após receber a prescrição de Ropinirole para tratar pernas inquietas que surgiram na gravidez, ela perdeu cerca de £ 30 mil (aproximadamente R$ 185 mil) em apostas. O diagnóstico de seu “novo vício” só veio quando o marido associou o comportamento à medicação após ler notícias sobre o tema. “Arruinou minha vida”, desabafa Emma, que agora enfrenta dívidas massivas.
A ciência por trás do impulso
A dopamina é o neurotransmissor responsável por regular o movimento e o sistema de recompensa do cérebro. Os agonistas da dopamina mimetizam essa substância para controlar tremores e espasmos, mas acabam superestimulando os centros de prazer. Isso pode transformar pacientes sem histórico de vícios em pessoas obcecadas por gratificações imediatas.
O relatório da BBC aponta consequências extremas:
- Tragédias familiares: Relatos de suicídios e divórcios após comportamentos sexuais coercitivos ou perda de economias de uma vida inteira.
- Crimes: Um advogado chegou a desviar mais de R$ 4 milhões de clientes para sustentar compulsões antes de tirar a própria vida.
- Falta de alerta: Embora o comportamento impulsivo afete cerca de um em cada seis pacientes de Parkinson que usam esses remédios, as bulas são criticadas por serem genéricas e não detalharem riscos específicos, como o desenvolvimento de parafilias ou pedofilia.
Omissão e batalhas judiciais
A farmacêutica GSK, fabricante do Ropinirole, teria tido conhecimento de um caso de comportamento sexual “desviante” ligado ao remédio ainda em 2000, mas alertas mais claros só surgiram em 2007. Atualmente, a empresa enfrenta processos na França e em outros países, onde pacientes buscam indenizações por danos morais e financeiros.
No Reino Unido, o Comitê de Saúde da Câmara dos Comuns já solicitou uma revisão urgente dos alertas. Enquanto isso, médicos e especialistas reforçam: pacientes que utilizam essa classe de medicamentos e percebem alterações bruscas de comportamento devem buscar ajuda médica imediata, sem interromper o tratamento por conta própria, devido ao risco de síndrome de abstinência.
