Com os olhos fechados e as mãos espalmadas para o céu, ela se preparava para iniciar cada cena todos os dias. Ao reparar esse gesto de Zezé Motta, “como quem recebe uma luz”, Júlia Tizumba decidiu imitá-lo e compartilhar a força daquele instante com a intérprete. “‘Reparei que você sempre faz assim’, disse. E ela respondeu: ‘É, antes de começar é sempre bom pedir ajuda para o astral’”.
A conversa íntima se tornou o próprio motivo para a atriz belo-horizontina “agradecer por estar viva para viver esse momento”. Júlia acaba de ter a sua primeira experiência em audiovisual como uma das protagonistas da série “(In)Vulneráveis” – de quatro episódios, sempre às 22h – e que estreou neste domingo (1º/3) no canal por assinatura Universal TV.
Na trama, Zezé Motta é a enfermeira-chefe do setor onde a personagem de Júlia trabalha. “Zezé é uma escola em movimento, muito generosa e dedicada, um exemplo de atriz, cantora, mulher negra, mãe, filha e agora colega de trabalho. Abriu e segue abrindo muitos caminhos para as novas gerações de atrizes negras. Nem em meus melhores sonhos eu imaginei que minha estreia no audiovisual seria ao lado dela. Considero que comecei nas telinhas com o pé direito, com uma bênção, um batismo, uma confirmação. Ela é inspiração e esperança. Não desistimos porque ela existe”, enaltece Júlia.
Coragem
A atriz entrou para a atração após participar do reality “No Jogo”, do E! Entertainment, e sair vencedora ao lado de Jade de Axé e Simone Cerqueira, que completam o quarteto de protagonistas negras do seriado médico, ambientado em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) no Rio de Janeiro. “Participar do reality foi uma das experiências mais loucas e desafiadoras da minha carreira profissional até agora. Eu adentrei um território muito novo para mim, que era o ambiente do audiovisual, e em um contexto de constante avaliação e muita exposição. Foi preciso muita coragem, mas Guimarães Rosa diz que o que a vida pede da gente é coragem. Então me joguei, e, felizmente, saí vitoriosa e com muitos aprendizados”, avalia Júlia.
Ela destaca que o protagonismo de mulheres negras na série está além da frente das câmeras. A direção geral é de Renata Di Carmo, que dividiu o roteiro com Ceci Alves e Susan Kalik. “A série é muito importante, porque além da realidade do sucateamento da saúde pública, ela também aborda a humanidade dos profissionais de saúde que compõem aquela estrutura. Profissionais, em sua maioria, negros. Os personagens negros da série são dotados de uma humanidade profunda, pluralidade, enredo, complexidade, muito além de estereótipos. Algo raro de se ver na teledramaturgia”, observa Júlia, ao lembrar que, normalmente, “temos poucas mulheres negras em papéis de destaque, embora sejamos maioria na sociedade brasileira”. Ela dá vida a Keyla, que, com Lorena, Regina e Mercedes enfrenta os desafios da enfermagem em áreas periféricas.
Batuque
“Cada personagem nos traz um presente. Keyla é uma técnica de enfermagem muito jovem, alegre e extrovertida. Ela me relembra sobre autenticidade, espontaneidade, liberdade de escolha, liberdade de expressão, empatia, a juventude e seus prazeres. Aprendo muito com ela. Uma das maiores belezas da nossa profissão de atriz é poder nos transformar em muitas. Viver outras vidas, outras realidades, outras histórias”, aponta.
A multiplicidade, aliás, é uma marca da própria trajetória artística de Júlia, que, no ano passado, colocou na praça o seu primeiro álbum solo, após duas décadas de dedicação à música. Com o autoexplicativo título “Minêra”, a filha de Mauricio Tizumba apresentou ao mundo uma inspirada safra autoral, composições e parcerias com Sérgio Pererê e sua versão para o sucesso do pai “Sá Rainha”.
“É um momento muito feliz e próspero na minha carreira. Dediquei e dedico muito tempo da minha trajetória ao teatro musical brasileiro, a projetos coletivos com os quais colaboro dentro e fora de Minas Gerais, como o Coletivo Negras Autoras, Companhia Burlantins e outros, além da minha carreira acadêmica. Mas ano passado foi o momento de celebrar essas duas décadas com este trabalho mais individual”, explica Júlia, para quem a música e a atuação são indissociáveis de sua maneira de ver e agir sobre a realidade ao seu redor.
“A minha atriz está presente quando canto e minha cantora está presente quando atuo. Essa é uma herança da nossa matriz africana, onde o cantar, dançar, batucar, atuar são amalgamados por natureza”, afiança ela, que também é autora do livro “Poesia Armada”, além de ter atuado nos musicais “Elza”, “Madame Satã”, “Zumbi”, “Oratório”, “Clara Negra”, “O Negro, a Flor e o Rosário” e “Herança”.
De Minas para o mundo
Desde criança, Júlia Tizumba se vê inserida no ambiente artístico, até pelo sobrenome que carrega. “Esse universo sempre me encantou e fui fazendo parte dele de forma muito natural, brincando de cantar e fazer teatro em casa, com minha família. Quando chegou o momento de escolher e me profissionalizar, fui fazer meus cursos livres, minhas graduações, mestrado e doutorado em artes. Fui pra vida fazer meus testes, minhas tentativas e sigo nessa empreitada, plantando e colhendo”, conta. Com referências como Ruth de Souza, Léa Garcia, Elza Soares, Clara Nunes, Zezé Motta e Renata Di Carmo, ela presta especial reverência a uma trupe de conterrâneas com as quais ela tem “o prazer e a felicidade” de conviver.
“Minas Gerais é a minha força e o meu porto. Somos muito mais fortes quando conectados às nossas raízes. Quem sabe de onde veio nunca está perdido por onde vai. Onde eu vou, Minas está comigo e sempre volto pra cá, minha casa é aqui, onde celebro com alegria Grace Passô, Leda Maria Martins, meus amados Mauricio Tizumba, Sérgio Pererê e tantos outros ouros da nossa terra”, exalta Júlia, que já mira no horizonte a preparação de um monólogo, além de seguir circulando com o espetáculo de seu disco “Minêra” e de estar “sempre aberta às infinitas possibilidades”.
“A arte é meu ofício, meu ganha pão, minha alegria e também minha ferramenta de luta por um mundo melhor e mais justo. Acredito muito na arte como uma ferramenta potente de sensibilização e transformação. Por isso, temáticas relacionadas às desigualdades sociais de raça e gênero, que atravessam a minha existência, estão sempre presentes em meu trabalho. Mas ainda tenho esperança que a luta seja cada dia menos necessária, até findar. E que assim possamos ampliar nossas temáticas principais, como já busco fazer”, arremata a artista.
Fonte: O Tempo