Por Marcello Ambrósio
O que define um terrorista? A resposta a essa pergunta deixou de ser apenas teórica para se tornar um dos maiores nós diplomáticos e políticos entre o governo brasileiro e a administração de Donald Trump. O centro da discórdia é a intenção dos Estados Unidos de classificar facções brasileiras, como o PCC e o Comando Vermelho, como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO). Enquanto Washington vê uma ameaça à segurança nacional, o Itamaraty corre para explicar que, juridicamente, o Brasil joga em outro campo.
Pela lei brasileira, o terrorismo é estritamente ligado a motivações de xenofobia, preconceito ou religião. Já as facções criminosas nacionais são movidas pelo lucro — o mercado das drogas e das armas — e não por ideologias políticas ou o desejo de derrubar o Estado. Especialistas alertam que as facções preferem um Estado estável para que seus “negócios” funcionem sem sobressaltos. No entanto, nos EUA, o conceito é mais elástico: se representa uma ameaça aos cidadãos americanos, pode ser rotulado como terrorismo.
Se os EUA avançarem com essa classificação, as consequências são práticas e pesadas: congelamento de ativos financeiros em todo o mundo e uma pressão maior para que agentes americanos atuem em solo brasileiro. Para o governo Lula, aceitar esse rótulo é abrir as portas para uma influência externa indesejada em um problema que o país considera de segurança pública doméstica.
Mas o verdadeiro incêndio está na política interna. Com as eleições de 2026 no horizonte, a oposição já utiliza o esforço diplomático do governo como munição, criando a narrativa de que Brasília estaria “protegendo” criminosos ao evitar o selo de terrorista. É uma armadilha retórica: explicar a diferença técnica entre “crime organizado” e “terrorismo” é complexo, enquanto o discurso de “tolerância zero” é de fácil digestão nas redes sociais.
Enquanto o governo prepara um dossiê para mostrar a Trump que está combatendo o crime, o debate foge do controle jurídico e entra no campo das paixões eleitorais. O desafio será impedir que uma questão de soberania e legislação se transforme em uma derrota política antes mesmo do início oficial da campanha.
