Por Marcello Ambrósio
O que deveria ser o início de um capítulo promissor na trajetória acadêmica de Ruth Lydie Joseph transformou-se em um cenário de humilhação pública e desamparo logístico. Estudante de Relações Internacionais na Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana), Ruth — que reside legalmente no Brasil sob visto humanitário desde 2020 — foi impedida de embarcar em dois voos com destino à Europa pela companhia aérea Latam, sob a justificativa subjetiva de que não possuía o “perfil adequado” para a viagem.
O “Filtro” Invisível no Guichê
O incidente ocorreu no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, na última terça-feira (10). Enquanto se preparava para um intercâmbio acadêmico na República Tcheca, Ruth foi interceptada por um segurança da companhia. O relato da estudante descreve uma abordagem intimidadora: documentos confiscados, etiquetas de bagagem arrancadas e uma sabatina sobre sua vida no Brasil.
A frase proferida pelos funcionários — de que ela não teria o perfil adequado — expõe uma ferida latente nos sistemas de controle migratório operados por empresas privadas. Sem um relatório por escrito ou justificativa técnica imediata, a estudante perdeu sua primeira conexão. Na tentativa seguinte, na quarta-feira (11), a lentidão na emissão do novo bilhete por parte da empresa causou a perda de um segundo voo.
Marcadores de Exclusão: Raça e Origem
Para especialistas em direitos humanos, o caso de Ruth não é um erro administrativo isolado, mas um exemplo de como marcadores sociais operam nos aeroportos. O Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC), que assumiu a assistência à jovem, classifica o episódio como grave.
“A raça, a origem e a nacionalidade frequentemente operam como marcadores que aprofundam abordagens discriminatórias”, afirma a advogada Kathelly Menezes.
A crítica central reside na delegação de poder às companhias aéreas para estabelecer juízos de valor sobre quem pode ou não cruzar fronteiras, muitas vezes ignorando vistos oficiais e documentações acadêmicas legítimas.
O Desfecho e o Silêncio Institucional
Após dias de espera no aeroporto sem assistência básica, e apenas após a pressão institucional da Unila e do CDHIC, a Latam remarcou o voo de Ruth para a próxima segunda-feira (16). Em nota oficial, a empresa limitou-se a informar sobre a realocação e afirmou atuar em conformidade com as normas internacionais, sem detalhar os critérios que levaram ao impedimento inicial da passageira.
O caso de Ruth Joseph se soma a uma estatística crescente de viajantes negros e imigrantes que relatam tratamentos diferenciados em terminais brasileiros. Enquanto ela aguarda a nova data para seguir com seu sonho acadêmico, o episódio deixa um rastro de indignação sobre as barreiras invisíveis que o racismo estrutural impõe, mesmo para quem possui todos os “carimbos” necessários no passaporte.
