Por Tatiana Santos
A trajetória do estudante Plácido Mbala Elilo pela engenharia brasileira está prestes a alcançar o seu momento definitivo. Nascido na Guiné Equatorial, o jovem chegou a Itabira em 2021 para fazer o curso de Engenharia Mecânica na Universidade Federal de Itajubá (Unifei), impulsionado pelo Programa de Estudantes- Convênio de Graduação (PEC-G). Agora, com a formatura estimada para o mês de junho ele vivencia o dilema entre retornar ao seu país ou continuar no Brasil em busca de estabilização no mercado de trabalho.
A jornada que trouxe Plácido a Itabira começou com um choque geográfico logo em seus primeiros dias em solo brasileiro. Ao desembarcar no Aeroporto Internacional de São Paulo, o estudante acreditava que as distâncias no país eram curtas e de rápida chegada por vias terrestres. Orientado pelo programa a seguir inicialmente para a cidade de Manaus, ele tomou um táxi até a rodoviária paulistana e iniciou uma viagem de ônibus em direção a Belém, no Pará, estimando que o trajeto duraria poucas horas, mas acabou passando cinco dias consecutivos dentro do veículo até alcançar a metade do destino. “Eu achava que o caminho era bem curto, que talvez seriam umas cinco horas de viagem. Mas demorou cinco dias que até eu fiquei muito surpreso. Como é possível uma viagem no veículo demorar tanto tempo?”, questionou Plácido, aos risos durante entrevista na Rádio Pontal.
A saga se estendeu de forma ainda mais surpreendente quando, ao chegar à capital paraense, o equato-guineense precisou acessar o transporte pelo Rio Amazonas para finalmente chegar na capital amazonense. Foram mais dias sobre as águas do imenso rio, cercado por uma paisagem natural impressionante e assustadora para quem desconhecia a dimensão territorial do país. Apesar do isolamento e das dificuldades de deslocamento enfrentadas em uma rota que durou quase duas semanas, o estudante garante que em nenhum momento cogitou desistir de seus objetivos, transformando o cansaço em combustível mental para honrar a expectativa dos familiares na África.
“O fato de eu ter chegado ao Brasil, ter deixado a família lá, por mais que eu passasse dificuldades, me fortalecia, porque já estou aqui, então fico com um objetivo. Minha família está me esperando lá e eles têm na mente que o cara veio para estudar, então eu não conseguia deixar as coisas para trás só pelas dificuldades, era tudo ao contrário, as dificuldades me fortaleciam para poder alcançar meus objetivos”, afirmou.
Acolhimento que abraça
Após o período de adaptação inicial na região Norte, onde considerou a população local consideravelmente fechada e pouco receptiva aos estrangeiros, a chegada ao campus em Itabira trouxe um conforto humano fundamental. O estudante destaca o acolhimento oferecido tanto pela comunidade acadêmica quanto pela população itabirana, elogiando o suporte de servidores da instituição que foram essenciais para sua integração na rotina de estudos. Plácido destacou que para ter acesso aos serviços essenciais do município formalizou seu registro junto à Polícia Federal, obtendo o Cartão Nacional de Registro Migratório, documento exigido pelo programa que lhe garantiu o atendimento médico através do Sistema Único de Saúde (SUS), onde já realizou diversas consultas.
No aspecto cultural, a culinária mineira impôs um desafio persistente ao longo de seus cinco anos de permanência em Itabira. Habituado a uma gastronomia de poucos condimentos em seu país natal, onde se busca o equilíbrio sutil dos sabores, sem excessos, Plácido enfrentou problemas para se habituar ao padrão brasileiro de alimentação, que ele descreve como excessivamente salgado e carregado de temperos. “Não me adaptei facilmente. Eu considero, não sei se é a culinária mineira ou é a culinária brasileira, considero muito temperada. Considero que a comida de vocês está muito temperada. É porque lá na Guiné, a gente usa pouco tempero”, explicou. Apesar de a adaptação ao paladar local não tenha sido de forma simples, o ambiente acolhedor acabou compensando o estranhamento à mesa e permitiu que ele se concentrasse nas exigências acadêmicas do curso.
Diante do encerramento do curso, o africano confessa estar com o coração dividido, e ao projetar os próximos passos, revelou que a decisão sobre seu destino ainda está sendo avaliada: “Como eu vou me graduar daqui a pouco, acho que vai ser no mês de junho, quando eu me graduar, já verei se fico ou volto. Ainda tenho que tomar aquela decisão importante na vida. Se o Brasil oferecer boas oportunidades, quem sabe? Talvez, dê para ficar”, concluiu, sinalizando que a permanência está condicionada às propostas do mercado de trabalho.