Por Tatiana Santos
Superar o vício em apostas ou qualquer outra dependência vai muito além de recuperar o dinheiro perdido. É reconstruir a vida emocional e encontrar força para vencer o preconceito da sociedade. Para quem decide recomeçar após uma crise, o primeiro passo é reconhecer a gravidade da situação e aceitar que precisa de ajuda. O caminho costuma ser difícil e cheio de obstáculos, principalmente por causa do medo de ser julgado e da falta de acolhimento das pessoas.
Recentemente, a itabirana Jéssica Ramos deu seu depoimento na Câmara de Vereadores, relatando que vivenciou essa realidade na pele ao tentar lidar com o vício em apostas online: “O medo, a vergonha de falar, eles põem a gente na humilhação, porque até a gente conseguir falar, até a gente perder o medo, passamos por humilhações desnecessárias, de pessoas que não entendem, de pessoas que não têm capacidade de se colocar no lugar do outro”, descreve. Esse medo de ser rotulado faz com que muitos prefiram sofrer em silêncio por anos.
A dependência é uma questão de saúde e não falha de caráter. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o vício em jogos é uma condição clínica complexa que exige cuidados de profissionais de várias áreas. Quando a sociedade trata o assunto como uma falha moral, a solidão de quem tenta se recuperar aumenta, fazendo com que a busca por tratamento seja ainda mais difícil.

Para quem decide mudar, ter o apoio de amigos e familiares é importante para criar a base emocional para o viciado não ter recaídas. O acompanhamento psicológico e médico é a ferramenta principal para entender e tratar o que levou ao vício. Além da parte emocional, organizar as finanças é outra dificuldade e exige que se crie um planejamento realista para pagar as dívidas e gerenciar o dinheiro de forma responsável. “No meio familiar mesmo, virou assim um entretenimento. Não era só eu que jogava, tinha outras pessoas, meu ex-marido jogava”.
Dividir experiências com pessoas que passam pelo mesmo problema é um recurso para a recuperação. Como enfatizam as diretrizes dos Jogadores Anônimos, “o compartilhamento de experiências, forças e esperanças em um ambiente livre de julgamentos é o pilar para a recuperação contínua e para a reintegração social do indivíduo”. Grupos de apoio e espaços comunitários oferecem um lugar de escuta, onde a história de cada um é respeitada. Saber que não está sozinho na caminhada e que há pessoas que o amam renova as forças para continuar. “Tenho um filho de dois anos. Graças a Deus, que é o propósito mais lindo que Deus me deu”, finalizou.