Tatiana Santos
Integrantes do projeto ‘ComCiência dos fazeres: na contramão da escravidão moderna’, realizaram uma roda de conversa com o projeto ‘Entre Linhas’ da Unifei, voltado a meninas na ciência e na engenharia, no dia 3 de setembro, em Itabira. O ComCiência dos fazeres tem o objetivo de divulgar ações de combate ao trabalho análogo à escravidão, promover reflexão sobre os fazeres de adolescentes da escola pública, além de estudar e discutir o que é trabalho decente.
O encontro faz parte de iniciativas de conscientização desenvolvida pela pedagoga e servidora da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) de Itabira, Cleide Beatriz Gomes dos Reis, com o apoio das estudantes/bolsistas de Engenharia de Saúde e Segurança, Paola Souza e Aline Ventura. Conforme Paola, se discutiu sobre o trabalho degradante e o papel da mulher em situação de trabalho análogo à escravidão. “A gente levou um panorama geral das trabalhadoras, que em sua maioria são negras e pardas, com baixo nível de escolaridade”. Boa parte é do setor agropecuário, das lavouras, de extração, de desmatamento, seguida do trabalho doméstico.
Iniciativas importantes
Há ainda um projeto extra em andamento, em parceria com Escola Estadual Professor Manoel Soares, de Ipoema, com alunos que não conheciam a Unifei, numa parceria com o fotógrafo Roneijober Andrade. Segundo Aline, o profissional tem realizado oficinas de fotografias ensinando os alunos a retratarem o que são seus fazeres. Em outubro, haverá exposição das fotos.
Foi também realizada apresentação na Funcesi com a Rede Cidadã, responsável pelos jovens aprendizes em Itabira, onde se abordou sobre o papel da educação no enfrentamento da desigualdade social. Houve interação com os jovens, participação de uma ex-aluna também da Unifei, formada em Engenharia Mecânica, com depoimento de como a educação mudou sua vida. Sobre a atuação no projeto, Aline se diz satisfeita e confiante: “Está sendo muito bacana. E que a gente possa fazer algo para diminuir isso [escravidão] e contribuir para que, quem sabe um dia, não exista mais”. Paola concorda: “A gente vê que é uma coisa que a gente precisa combater, precisa ter um olhar mais apurado para isso e que a melhor forma é a conscientização”.
Só faltam grilhões
O projeto foi criado em 2024, por iniciativa da pedagoga e servidora pública da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) de Itabira, Cleide dos Reis, com o apoio das bolsistas. A ideia era trabalhar na universidade a questão racial. Mas, percebeu-se uma necessidade de tratar sobre as condições de trabalho atual, entendendo que o público negro e com baixa escolaridade é o mais afetado. “Em pleno século 2021, nós estamos ainda combatendo o trabalho análogo à escravidão nas condições da idade moderna, 1500, 1600, 1700, naquela época da escravidão mesmo. Só está faltando mesmo colocar uns grilhões nas pessoas”, argumenta.
O trabalho análogo no país ocorre em vários segmentos, como a indústria da moda, costura, construção civil, mas há casos de mulheres que atuam anos e décadas em casas de família, sem carteira assinada, em más condições, sem direitos básicos etc. Para Cleide, a forma de trabalho que desrespeita a pessoa como ser humano abre a porta para suprimir a dignidade. “Trabalho é uma benção de Deus, nos dignifica. Agora, como as pessoas conseguiram pegar uma coisa que é para ser abençoada, que é você realizar coisas com a sua própria mão, sua mente, construir, e isso virou um instrumento de subjugar pessoas?”, questiona.
Números
Uma plataforma de dados do trabalho análogo à escravidão no Brasil citada por Paola, mostra que de 1995 a 2004 foram 65.598 pessoas resgatadas em condições de trabalho análogo à de escravo, com uma média de 2.104 por ano, em todas as regiões do Brasil. A maioria das vítimas são pretas e pardas, seguido de pessoas brancas, sendo indígenas e amarelos numa porcentagem menor. Aline acrescenta que no mesmo período, mais de 7 mil pessoas foram resgatadas, com condenação de 253.