Ex-funcionários relatam rotina de adolescentes em ambiente controlado, com festas, trabalho intenso e restrições; influenciador está preso acusado de tráfico de pessoas e exploração sexual infantil.
Uma adolescente que vivia na casa do influenciador Hytalo Santos engravidou durante o período em que participava das gravações de vídeos para redes sociais. Segundo as investigações, a jovem perdeu o perdeu o bebê ainda enquanto estava sob os cuidados do influenciador.
Kamyla Santos, conhecida nas redes como Kamylinha na “Turma do Hytalo”, engravidou aos 17 anos do irmão do influenciador, Hyago Santos. A também influenciadora foi “adotada” por Hytalo aos 12 anos, época em que já aparecia em vídeos com ele.
O perfil de Kamylinha no Instagram acumulava mais de 11 milhões de seguidores e foi bloqueado por determinação da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda por envolvimento com casas de apostas. Em nota, a secretaria informou que o motivo do bloqueio foi por se tratar de uma menor de idade fazendo publicidade de casas de aposta.
Rotina na mansão de Hytalo
Hytalo e o marido, Israel Nata Vicente, estão presos desde sexta-feira (15), acusados de tráfico de pessoas e exploração sexual infantil. Ex-colaboradores que pediram anonimato relataram ao Ministério Público e à imprensa uma rotina marcada por controle abusivo, festas com consumo de álcool por menores e ausência de cuidados básicos com os adolescentes.
“Todos bebiam sem restrição”, afirmou um ex-funcionário. Outro relato aponta que os jovens só podiam se alimentar quando Hytalo acordava. “Era só quando ele realmente deixava”, disse.
Além disso, os adolescentes não tinham acesso livre aos próprios celulares. “Esses celulares às vezes eram guardados dentro de uma caixa e, outras vezes, eram guardados dentro do quarto dele, com chave”, contou uma ex-funcionária. Segundo os depoimentos, o influenciador temia que sua conduta fora das câmeras fosse registrada.
A rotina na casa era intensa, com gravações frequentes e noites em claro. “Inclusive já teve filmagens que ele fez em que as crianças estavam indo para a escola e, após desligar as câmeras, elas não iam para a escola”, disse um dos entrevistados.
Em depoimento ao Ministério Público, uma ex-funcionária afirmou que os adolescentes viviam em regime de cárcere privado, sem vida social e sob vigilância constante. “Vivem como propriedade dele”, declarou.
As investigações também apontam que os pais dos adolescentes recebiam uma espécie de mesada para permitir que os filhos morassem com Hytalo e participassem das gravações. Os valores variavam entre R$ 2 mil e R$ 3 mil.
O caso segue sob investigação pelo Ministério Público da Paraíba, Ministério Público do Trabalho e Polícia Civil. Os órgãos apuram a extensão das violações e o envolvimento de outros responsáveis.
Após denúncias de outro influenciador, o youtuber Felca, as redes sociais de Hytalo foram bloqueadas. TikTok, YouTube e Instagram afirmam que suspenderam a monetização dos conteúdos por violações às regras, mas não explicaram por que as contas permaneceram ativas até a repercussão nacional do caso (leia as notas completas abaixo).
No momento da prisão, cada um dos dois foi encontrado com quatro celulares. “A suspeita é que eles estavam sim tentando se evadir e já sabiam que seria expedido um mandado de prisão”, afirma Fernando Davi, delegado de polícia.
A defesa diz que eles não estavam fugindo e que estavam em São Paulo a passeio. Os advogados negam as acusações de exploração sexual e tráfico de pessoas e afirmam que a prisão é “um exagero”.
“Se os fatos causam indignação é uma outra abordagem para a situação, mas prendê-lo por conta disso me parece um exagero tremendo. A ideia de exploração sexual que foi pintada, acho que ela transborda da realidade muito”, diz a defesa de Hytalo.
O Ministério Público da Paraíba e o Ministério Público do Trabalho sustentam que há provas suficientes de exploração de menores. Segundo os procuradores, os adolescentes foram aliciados em outras cidades, levados para João Pessoa e submetidos a um regime de trabalho forçado. Depois da prisão do casal, os jovens foram devolvidos às famílias.
Fonte: G1