No meio de um mar de gente vestida de fantasia, suor e alegria, certos foliões se destacam. São pessoas que crescem para o alto, equilibradas sobre pernas de pau e que desfilam no cortejo com notável maestria, visto que Belo Horizonte carrega em sua geografia morros desafiadores até para quem mantém os dois pés no chão.
Movidos pela arte que vem do circo, os pernaltas levam para o Carnaval belo-horizontino farra e beleza, mas também resistência e luta. A cada ano, a folia recebe mais pessoas dispostas a subir alguns centímetros acima do asfalto para reinventar a forma de brincar a cidade. E se há poucos anos os pernaltas eram presença pontual em alguns blocos, hoje elas integram cortejos dos mais variados tipos.
O movimento começou a ganhar força especialmente 2022, quando o Cortejo do Zodíaco trouxe a artista circense Elisa Caldeira, do Rio de Janeiro, para ministrar oficina gratuita a pessoas interessadas em aprender a subir em pernas de pau. Insatisfeita com a rotina de dar aulas, a bailarina Paula Ayara, de 36 anos, participou do curso e descobriu uma “paixão à primeira subida.”
No mesmo ano, brilharam os olhos da arquitetura e urbanista Gabriela Ruas, de 30 anos, ao ver duas mulheres com pernas de pau desfilarem em um pequeno bloco da Lagoinha, e, com quem, dias depois, aprendeu a se equilibrar nos objetos de madeira. E foi assistindo ao Cortejo do Zodíaco, também em 2022, que o enfermeiro Joelson Rodrigues, de 30 anos, encantou-se com “aquelas figuras gigantes que pareciam voar sobre o bloco.”
Juntos, os três pernaltas representam parte de um grupo que encontrou na altura uma nova forma de viver o Carnaval de BH. “A perna de pau no carnaval é uma expressão de arte vinda do Rio de Janeiro, onde foi popularizada nas festas tradicionais de rua por meio de coletivos, como o PernAlta e a Orquestra Voadora. Ela é um instrumento tradicionalmente reconhecido como circense, mas também é um elemento milenar e ancestral de diversas tribos africanas e de outras culturas pelo mundo”, explica Gabriela Ruas.
Ao lado de Paula Ayara, ela ajudou a fundar o Trovoada, bloco formado por mulheres pernaltas, que desfilou pelo segundo ano consecutivo no dia 1º, no bairro União, em cortejo em celebração à Pomba Gira.
Além do Trovoada, Gabriela desfilou neste ano nos blocos Cómo te Lhama, Queima Largada, Chá da Alice, Regalório e A Roda. Ela também sairá no Bloco da Lagum e no Pisa na Fulô e “provavelmente mais algum que seja de bateria e naipe de pernaltas abertos.” Gabriela começou a dançar balé na pré-adolescência, e, logo depois, a praticar ioga.
“Essas duas habilidades certamente me ajudam muito na minha vida pernalta, mas sempre digo que, quem tem um mínimo de consciência corporal, não vai encontrar grandes dificuldades ao subir na perna, pois tudo é questão de reencontrar seu eixo de equilíbrio em uma nova altura e com uma extensão de seu corpo”, ressalta. A artista explica que o equilíbrio na perna de pau é alcançado por meio do movimento. “Estamos sempre fazendo transferência de peso de uma perna para outra, brincando com o desequilíbrio. No fundo, é uma questão paradoxal, pois estamos sempre buscando algo que nunca iremos encontrar: o equilíbrio perfeito”, identifica.
Com suas pernas de pau, Paula Ayara também sai em diferentes blocos, como Tchanzinho Zona Norte, Havayanas Usadas, Pisa na Fulô, Queimando a Largada e Todo Mundo Cabe no Mundo. Com formação sólida na dança – balé clássico desde a infância e passagem por outras modalidades, como pole dance –, ela já tinha excelente preparo físico quando decidiu se tornar pernalta.
“Vi que na área circense existem mais oportunidade de trabalho que na dança. Além disso, sou apaixonada por axé e por funk, mas precisava viver 24 horas fingindo ser uma ‘princesinha perfeita dos bons costumes’, que a sociedade mineira exige, porque era essa imagem que eu vendia às famílias que matriculavam as filhas para ter aulas comigo. Mas no primeiro dia em que subi na perna de pau, a Elisa colocou um funk bem alto na Praça Floriano Peixoto e mandou a gente rebolar. Então, eu soube que era isso que tava faltando na minha vida”, celebra.
Para Joelson Rodrigues, a “iniciação na perna de pau” começou em oficinas direcionadas para performances no Carnaval. “A partir daí, acabei me aproximando e me aprofundando em relação ao circo de um modo geral”, explica. Atualmente, ele é aluno do curso de longa duração de circo na Escola Livre de Artes – Arena da Cultura. “Posso dizer que a perna de pau direcionada ao Carnaval foi a porta de entrada que fez com que eu me interesse pelas artes circenses no todo”, elabora.
Neste ano, ele vai desfilar no EBbloco e no Pisa na Fulô, mas já passou pelo Garota Eu Desço a Califórnia, Unidos do Titanic, NaTóra Bloco e Cómo Te Lhama?. Neste último, a propósito, estava de Ney Matogrosso, inspirado na estética dos Secos & Molhados. “Uma das muitas coisas que me fascinam nessa fase do Ney é como ele usava pintura e elementos como as penas para criar uma figura que era quase uma criatura mística. Ele é um grande exemplo de como ocupar o espaço com força e verdade”, vibra Rodrigues.
Exercícios de força são fundamentais para os pernaltas
“Não adianta estar sedentária o ano todo e querer sair de perna de pau em diversos blocos de Carnaval. Seu corpo não vai conseguir.” A afirmativa é da pernalta Gabriela Ruas, que já chegou a ficar seis horas ininterruptas em um cortejo. Na ocasião, ela percorreu mais de 20 quilômetros com as pernas de pau, que podem pesar cerca de dois quilos cada.
Portanto, para conseguir se equilibrar nas alturas, é preciso fazer exercícios de fortalecimento com constância ao longo do ano anterior. A pernalta Paula Ayara reforça essa ideia. “Em BH, há professores que são muito enfáticos nesse ponto: para não se machucar, é preciso se preparar bem. Treinar no chão, fazer fortalecimento, investir em exercício físico e praticar quedas e subidas é fundamental antes de ir para a rua”, ressalta.
Cair das pernas de pau, inclusive, faz parte do treinamento. Por isso, você sempre verá pernaltas usando joelheiras. “Antes de subir na perna, aprendemos a cair dela em segurança. A melhor forma de fazer isso é direcionar os joelhos, que estarão protegidos, para o solo, com o corpo engajado e firme em uma descida controlada. O treino da queda é imprescindível para que ela ocorra da melhor forma possível, porque vai acontecer eventualmente. Também é bom perder o medo do chão e entender que, na prática, do chão a gente não passa. Além disso, é necessário sempre alongar o corpo antes e depois de subir na perna de pau, pois ela é um exercício físico muito pesado”, acrescenta Gabriela.
O pernalta Joelson Rodrigues explica ainda sobre o funcionamento do equipamento artístico. “Quando falamos em perna de pau, para muitas pessoas, vêm à mente histórias da infância, daquelas feitas de bambu, em que as pessoas seguravam com as mãos e apoiava os pés, sem prender ao corpo. As que usamos hoje no circo e no Carnaval são diferentes: ficam fixas aos pés e às pernas, quase como uma extensão do próprio corpo. São produzidas por artistas circenses, em alumínio ou madeira, com medidas específicas para cada pessoa, garantindo a estabilidade necessária para as manobras e para a caminhada.
Como se equilibrar no meio da multidão?
Dentre os principais desafios elencados pelos artistas para se equilibrar com as pernas de pau na multidão, estão as irregularidades dos calçamentos, lixo no chão e as subidas e descidas íngremes típicas da cidade. Há blocos, inclusive, cuja presença dos pernaltas é impossível por conta da geografia de alguns bairros, como Santo Antônio e Concórdia.
“As dificuldades durante os cortejos normalmente são externas: do trajeto, da rua, do piso molhado, do excesso de lixo, como latinhas e copos plásticos. O maior perigo é pisar num panfleto ou numa garrafa e acabar indo para o chão”, aponta a pernalta Paula Ayara. A pavimentação da rua é outro ponto crítico, e os “morros também são complicados”, chama a atenção a pernalta Gabriela Ruas. “O esforço físico demandado em um morro é consideravelmente maior do que em um terreno plano. Exige bem mais das panturrilhas e da lombar”, esclarece
Mas Paula conta que, “de resto, os pernaltas dão um jeitinho”. Aprendemos a subir e descer degraus, a encarar rampas e subidas, a andar na grama e no paralelepípedo, a ficar sempre muito atenta aos buracos e ao que está no chão. Mas, na multidão, a gente também aprende, com jeitinho, a se deslocar: pede passagem, coloca a mão no ombro das pessoas, chama com educação para abrirem espaço…”, explica.
O importante é que, “com a ajuda dos foliões e dos demais pernaltas, tudo flui”, segundo Joelson Rodrigues. “No geral, sempre aparecem pessoas para auxiliar quando precisamos, o público costuma ser muito receptivo. É fundamental que todos respeitem as normas gerais dos blocos, como o limite da corda (quando houver), os espaços reservados para os músicos, dançarinos e pernaltas”, salienta.
Espaço de luta, representatividade e ocupação do espaço público
No Carnaval de Belo Horizonte, a perna de pau vai além o efeito estético e se consolida como espaço político. No alto, artistas – mulheres, em sua maioria – transformam visibilidade em afirmação.
“É gente que quer ser vista, não só por vaidade, mas por necessidade, por direitos e para expor ideias. Hoje em dia, em BH, muitas mulheres vão aos protestos com faixas, participam de manifestações ou vão para o próprio Carnaval com roupas maravilhosas e frases escritas no corpo. Eu acho que tem tudo a ver com isso, com mostrar que a gente está aqui, que a gente importa. É um processo empoderador: subir lá no alto, todo mundo te vendo, e você curtir, rebolar, dançar, convocar as pessoas para a alegria da festa”, ressalta.
Gabriela Ruas reconhece que a visibilidade incomoda e desafia estigmas. “É comum ouvirmos críticas, como a que queremos aparecer demais, ou que não é seguro, pois podemos cair a qualquer momento e machucar pessoas ao nosso redor. Mas, na verdade, é preciso muita coragem para se colocar vulnerável num ambiente tão espontâneo, visceral e surpreendente que é a rua no Carnaval”, destaca.
“Não é só um apelo estético ou visual, é também dizer o que podemos fazer para somar nessa festa popular construída pelo povo e para o povo. Espero que a cultura pernalta de Carnaval em BH se propague cada dia mais, alcançando mais simpatizantes, atraindo novos participantes e quebrando estigmas”, esperança-se.
Joelson Rodrigues diz ainda que os pernaltas exercem um papel funcional nos blocos. “Por termos uma visão privilegiada, auxiliamos no andamento, ajudando a abrir caminho e cuidando dos demais componentes em colaboração com foliões e ambulantes”, diz.
“Essa maior visibilidade também permite uma conexão muito forte com o público. Em blocos mais cheios, muitas vezes quem está na multidão não consegue visualizar todas as atrações ou o que está acontecendo no meio do bloco, e o pernalta acaba ocupando esse lugar de referência. Conseguimos, de certo modo, aproximar mais os foliões da energia do bloco, servindo como um ponto de interação que alcança toda a gente”, pondera.
Fonte: O Tempo