Com a fragmentação digital e o domínio dos algoritmos, artistas como Marília Mendonça, Alaíde Costa e Taylor Swift vivem o auge em massas de nichos
Por Hugo Sukman
No auge do sucesso, em 2018, Marília Mendonça (1995-2021), ícone do feminejo, teve um sonho: ela cantava para todos e cada um dos brasileiros. Ele se realizou no projeto “Todos os cantos”, em que gravaria uma nova canção em cada capital brasileira, em shows em praças públicas, divulgados no próprio dia. Ancorada no poder econômico da máquina sertaneja e da gravadora Som Livre, Marília chegava de jatinho de manhã. Tudo era montado e divulgado de surpresa, o que resultava em shows lotados e vibrantes, recordes de visualização no streaming, Grammy, etc.
Mas logo na primeira gravação, em Belém, em agosto de 2018, Marília tomaria um susto. Ao desembarcar do avião e pegar a van, percebeu o mau humor matinal do motorista. Ao tentar estabelecer laços, pedir para ele botar um sertanejo no som do carro, ela ouviu: “Gosto de sertanejo, não”. Na verdade, ao contrário de meia Belém e de meio Brasil, aquele motorista não fazia ideia de quem transportava.
— Vivemos uma era de fragmentação, em que o acesso facilitado à música permite que o público se aprofunde em nichos e descubra sons que dialogam com seus valores e identidades. Isso é poderoso e muito democrático, ao mesmo tempo em que desafia a ideia de fenômenos mundiais como os Beatles ou, no Brasil, um Lulu Santos — explica a vice-presidente sênior da Sony Music (controladora da Som Livre) no Brasil, Cristiane Simões. — Hoje o cenário é muito mais fragmentado, mas não significa que não possa surgir um grande fenômeno. O mercado musical se atualizou, assim como o mundo. Ainda vemos artistas que conseguem ultrapassar barreiras e tocar diversas gerações, como Marília. Talvez de maneira menos homogênea do que antes, mas, ainda assim, de uma forma muito potente. O que antes era construído pela mídia tradicional, hoje pode nascer com o digital, viralizar e criar comunidades apaixonadas, que têm, de certa forma, amplas conexão e penetração.
Algoritmo atrapalha
Fenômeno dos últimos cem anos, potencializada pela invenção do rádio, pela popularização do disco e pelo cinema sonoro — que, juntos, não pararam de evoluir até chegar ao formato digital atual — a música popular teve até justamente o advento do digital o poder de unir gerações, classes, países e até culturas distintas. “Mais famosos que Jesus Cristo”, a frase provocadora de John Lennon sobre os Beatles, continha uma verdade inescapável: a presença de um simples quarteto de música popular em lugares que o próprio cristianismo não penetrava. Na era digital, isso ainda seria possível?
— Impossível, em tempos de internet — diz, taxativo, o produtor musical Marcus Preto, que trabalhou com grandes artistas da era analógica como Gal Costa e Erasmo Carlos, e com nativos digitais como Jota.pê. — Na época das redes sociais, é impossível. Ou, melhor ainda, na era do algoritmo. No tempo do LP, por exemplo, a gente juntava um dinheiro, comprava o disco e morava naquele disco. Isso acontecia com você e com milhões de pessoas. Hoje, com tudo à disposição, cada um fica no seu quadrado, no seu nicho.
Nos nove anos em que trabalhou com Gal Costa, já na era digital, Preto notou que a cantora que havia sido a mais famosa do Brasil não era conhecida por uma parte das pessoas — como o motorista de Marília Mendonça. Mas continuava com um público fiel, grande e apaixonado: os tais nichos.
O produtor dá dois exemplos de artistas com quem trabalha e que se deram bem na cultura atual: Alaíde Costa, prestes a completar 90 anos, e Jota.pê, que, aos 32, já ganhou o Grammy Latino de melhor cantor de MPB.
— Estou vivendo o melhor momento da minha carreira — declarou recentemente Alaíde, que já passou pela bossa nova, cantava nos célebres programas da TV Record dos anos 1960, no “Clube da Esquina”, com Milton Nascimento, mas nunca se sentiu tão presente e acarinhada como hoje, com o contato direto pelas redes sociais e os álbuns apreciados.
— O Jota.pê furou 15 bolhas. Um menino da periferia de São Paulo, tocava em barzinho, participou do “The Voice”, de onde tantos saem para o anonimato, mas achou seu nicho e foi ampliando até ganhar o Grammy — ensina Preto. — O ideal não é o máximo. O todo não existe mais. O negócio é encontrar o seu lugar e ir furando cada camada.
De todo modo, já vai longe o tempo dos grandes artistas de massa. Hoje, mesmo uma estrela de alcance mundial como Taylor Swift, que com sua turnê até altera para cima o PIB de certos países, é considerada uma artista “de massa de nicho”, uma aparente contradição. Mas como o motorista de Marília, metade da Humanidade nunca ouviu “Blank space”, “Cruel summer” ou qualquer outro sucesso da estrela country-pop. Coisa impensável nos tempos de “Yesterday” ou “Help”, óbvias canções dos Beatles.
Para Cristiane, da Sony, o segredo é entender o momento.
— O nicho é mais do que inevitável. Ele é estrutural. A personalização passou a ser regra, permitindo a criação de bases sólidas de fãs, que geram engajamento real. Mas isso não significa que os fenômenos de massa deixaram de existir. O segredo está na autenticidade e na conexão. O artista que entende isso consegue atravessar fronteiras culturais e gerar impacto global, mesmo que comece falando com um público muito específico. O “nicho de massa” é, na verdade, um novo formato de universalidade.
Arte para o povo
Assim, exemplifica, um Luan Santana sai do sertanejo para o pop, uma Isadora Pompeo extrapola o gospel e o segmento religioso e os Barões da Pisadinha levam seu forró eletrônico do interior da Bahia para o Brasil inteiro — como Luiz Gonzaga e tantos nordestinos antes deles. Mas tem o caso da cantora Marina Sena, com uma identidade musical e estética muito própria, ligada à MPB, e que dialoga com um público específico, engajado e fiel — talvez como a decana Alaíde Costa.
— O nosso papel segue o mesmo: identificar talentos e fazer sua arte chegar às pessoas — diz Cristiane sobre as gravadoras.
Porque talvez no fundo nada tenha mudado, embora tudo tenha mudado. E o importante seja mesmo uma melodia e uma letra bacana que de repente cheguem aos ouvidos e ao coração, de uma forma inexplicavelmente especial. Como mais ou menos vem acontecendo há cem anos.
Fonte: O Globo