Por Tatiana Santos
A experiência acadêmica internacional apenas começou para o estudante angolano Martinho Jolela Chingui, que desembarcou em Itabira em fevereiro de 2026 para cursar Engenharia de Controle e Automação na Universidade Federal de Itajubá (Unifei). O jovem trouxe consigo uma bagagem intelectual robusta de quem se dedicava a orientar estudantes e dar aulas em disciplinas de ciências exatas, além de inglês, em seu país de origem. A escolha pelo Brasil como destino foi motivada pelo desejo de viver novas iniciativas científicas e expandir seus horizontes. O domínio da Língua Portuguesa foi um facilitador inicial, que lhe permitiu focar no aprendizado desafiador das engenharias e de novos idiomas.
Logo em seus primeiros passos em Itabira, Martinho enfrentou os impactos do clima e da geografia. Acostumado com as altas temperaturas de Angola, o estudante se deparou com o frio e uma diferença de fuso horário de quatro horas, que desregulou suas noites de sono durante as primeiras semanas de adaptação. A topografia do município também o surpreenderam em sua rotina diária, exigindo esforço físico para o deslocamento em meio às ruas cheias de morros. A comunidade acolhedora rapidamente superou os receios iniciais que tinha sobre a segurança brasileira.
O calouro tinha impressões do país, que vieram a ser mudadas: “O Brasil, a princípio, eu achava que era um país composto por traficantes em geral. Eu achava que todo canto do Brasil tinha traficantes. Então, esse foi aquele meu medo. Mas, na verdade, quando cheguei aqui foi totalmente diferente. Totalmente diferente. O tratamento humanizado, nossa, foi de top. Na primeira linha”, pontuou, demonstrando muita gratidão pela calorosa recepção oferecida pelo povo mineiro.
Metodologia de ensino diferente
A adaptação pode ser um dos maiores desafios da vida universitária, especialmente quando o ritmo exige dedicação exclusiva e um nível de foco constante. Mudar de um formato de ensino mais flexível para um mais intenso resulta em impacto na energia e capacidade de absorção, trazendo um cansaço físico e mental difícil de gerenciar, como detalha o angolano: “A metodologia de ensino é muito, mas muito diferente. A gente, no primeiro semestre em Angola, estudava em um período diurno, não estudávamos assim em período integral. E depois do período diurno tu tem alguma coisa aqui para fazer, talvez trabalho, algumas atividades mesmo escolares e tudo mais. Diferente daqui. Aqui é um período integral e faz muito sentido, uma vez que é uma área que exige tanta atenção como também o esforço do estudante. Vem sendo, na verdade, uma dificuldade porque às vezes a mente fica totalmente intacta e tu não consegue entender absolutamente nada, ou seja, ela não capta nada e tu fica assim cochilando na sala”, contou, em meio aos risos.
Adoção das mineiridades
Apesar de compartilharem o mesmo idioma, os detalhes e ritmos da fala também se transformaram em barreiras sutis a serem superadas no cotidiano itabirano. Martinho destaca que o modo de se expressar e de interpretar palavras exige cautela para evitar mal-entendidos. Ele também lembra sobre o fato de que o hábito local de falar as frases rapidamente o obriga a solicitar que as pessoas repitam as informações em alguns momentos.
O jovem domina inglês, espanhol, francês, alemão e agora estuda mandarim. Isso não o impediu de adotar termos bem mineiros. Algumas palavras já fazem parte de suas conversas e surpreende até mesmo sua família nas ligações. “Olha, na verdade, eu aprendi muitas linguagens mineiras. Temos aí o ‘arredar’, que é diferente da linguagem que a gente fala. E, às vezes, quando falo também com o pessoal familiar de Angola, tento dar algumas palavrinhas mineiras e eles ficam: ‘Nossa, o que está falando?’. Aí eu traduzo para eles e eles ficam: ‘Nossa, tá bom, tá bom'”, comentou.
A vinda de Martinho para a Unifei decorre do processo seletivo do PEC-G de 2025, que deixou os candidatos escolherem duas opções de cidades no Brasil. Sua primeira opção era estudar Engenharia Aeronáutica em Uberlândia, mas as mudanças feitas pelo Ministério da Educação o mandaram para o curso de Engenharia de Controle e Automação na Unifei Itabira. Hoje, o estudante vê esse resultado como um propósito para a sua vida, e já adaptado à cultura e ao ritmo da cidade, continua encarando cada novidade cultural como uma chance de crescer na profissão e na vida pessoal.