Por Marcello Ambrósio
Autoridades europeias voltaram a demonstrar preocupação com o rumo da política externa dos Estados Unidos e seus efeitos sobre a estabilidade da ordem internacional construída no pós-guerra. Em meio a tensões geopolíticas crescentes, líderes do continente avaliam que decisões recentes adotadas por Washington colocam em xeque não apenas a coesão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), mas também os pilares do multilateralismo que sustentam a segurança global.
A percepção europeia é a de que, ainda que não haja uma declaração explícita de rompimento, a condução unilateral da política externa americana fragiliza alianças históricas e reduz a previsibilidade estratégica — elemento central para a confiança entre Estados-membros. Para diplomatas da União Europeia, esse comportamento representa uma erosão gradual da liderança compartilhada que marcou décadas de cooperação transatlântica.
Do outro lado, o governo dos Estados Unidos nega qualquer intenção de enfraquecer a Otan ou desestabilizar a ordem mundial, classificando as críticas como interpretações exageradas. Washington sustenta que suas ações visam a proteção de interesses nacionais legítimos e que o compromisso com a aliança militar permanece intacto.
Ainda assim, analistas europeus avaliam que o discurso americano não se traduz, necessariamente, em práticas concretas. A distância entre retórica e ação tem alimentado desconfiança e levado países do bloco a discutirem, com maior seriedade, alternativas estratégicas que reduzam a dependência dos EUA em temas de defesa e política internacional.
O episódio evidencia um cenário de desalinhamento crescente entre aliados históricos e reforça a sensação, na Europa, de que a atual ordem global atravessa um momento de inflexão — no qual a ausência de consensos claros pode abrir espaço para instabilidade e disputas de poder ainda mais profundas.
