Por Tatiana Santos
Após 28 anos de dependência química, o motorista Anderson Cleiton encontrou na comunidade terapêutica Fazenda da Esperança, em Itabira, a ferramenta necessária para romper o ciclo da drogadição. Em entrevista à Rádio Pontal, Cleiton, que nasceu em São João del Rey, destacou a diferença entre clínicas que visam apenas o lucro e o modelo de acolhimento reconhecido pelo Vaticano, baseado no tripé da convivência, trabalho e espiritualidade.
Para ele, o pilar da convivência na Fazenda da Esperança foi o mais desafiador, por exigir o compartilhamento de uma casa com até 18 homens de diferentes classes, religiões e níveis de educação. Já a espiritualidade se tornou seu ‘alimento’, transformando uma fé antes superficial em um compromisso diário com a sobriedade.
O relato de Cleiton mostra que a recuperação é um processo contínuo. Mesmo fora da fazenda há nove meses, ele entende que o equilíbrio mental exige vigilância constante. O conselho de quem venceu o fundo do poço passa pela aceitação de que não se consegue vencer sozinho. “A parte mais difícil da recuperação é aceitar e falar que você não é capaz sozinho”, relatou. Outro ponto importante é buscar um guia espiritual para fortalecer a mente, e por fim, ele acredita que contar com o apoio da família é essencial, pois ela é quem sofre ao lado do dependente químico.
Cleiton destacou ainda os abusos sofridos em experiências anteriores em falsas clínicas, onde viu internos mais humildes enfrentando maus tratos e medicação excessiva. Essas vivências torna sua vitória atual ainda mais significativa. Hoje, ele utiliza o simbolismo de Jesus como um “convidado de honra” em sua rotina para manter a sanidade e os valores recuperados.
Mais perto do que nunca
Apesar de estar fisicamente a 270 km de distância de seus familiares, Cleiton afirma que nunca esteve tão perto emocionalmente deles como agora. “Porque eu converso com eles todos os dias, pedem bênção. Acordar todo dia com sobriedade não tem preço”, declarou. Apesar disso, ele entende que o processo de reconquista e reconstrução da confiança vem com o tempo. “É complicado. A gente não tem que cobrar nada. É o tempo que vai curar essa mágoa, essa tristeza. Mas eu acredito que hoje eles estão orgulhosos de mim”, conclui o motorista, que agora planeja transformar sua gratidão em ação ao montar um grupo de apoio para retirar pessoas em situação de rua e encaminhá-las para a recuperação.