Por Tatiana Santos
A população brasileira está envelhecendo com a proporção de idosos (60 anos ou mais) quase dobrando entre 2000 e 2023. Diante disso, a médica geriatra Ana Paula Real, de Itabira, traz esclarecimentos fundamentais sobre memória, envelhecimento saudável e demência, temas cada vez mais presentes na rotina das famílias. Formada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com duas residências médicas pelo Hospital das Clínicas da UFMG (Clínica Médica e Geriatria), a especialista também realizou dois programas avançados em memória e demências, um pela Universidade de São Paulo (USP) e outro por uma universidade do Canadá.
Segundo a geriatra, nem todo esquecimento é sinal de doença, mas é preciso atenção ao tipo de falha de memória. “Alguns esquecimentos são esperados com a idade, como demorar um pouco mais para lembrar um nome ou ter aquela sensação de ‘na ponta da língua’. O problema é quando a pessoa não lembra depois”, explica. Ela destaca que esquecer acontecimentos recentes não é normal. Por exemplo, o idoso precisa lembrar do que comeu no dia anterior, do que fez no Natal passado, saber o dia, o mês e o ano, o que não é opcional, é orientação básica.
Demência ainda é pouco diagnosticada
Um dado que chama atenção é o número de diagnósticos perdidos. Um estudo recente mostrou que cerca de 80% dos idosos com demência não recebem diagnóstico. De cada 10 com a doença, oito não sabem e nem a família percebe, ressalta Ana Paula. Para ela, o erro mais comum é associar autonomia física à saúde cognitiva. “A família diz: ‘minha mãe toma banho sozinha, anda sozinha’. Mas essas funções só se perdem em fases avançadas. No início, o que se perde são as atividades mais complexas”.
Entre os sinais de alerta estão dificuldades para lidar com dinheiro, dirigir, organizar a rotina, além de confusão ao sair do padrão diário. A médica reforça que demência não afeta apenas a memória. Alterações de comportamento são sinais precoces importantes. Por exemplo, o idoso fica mais irritado, isolado, deprimido ou agressivo, algo que não é normal no envelhecimento. Outro sinal de alerta é a relação entre depressão e demência, ou seja, uma pessoa que nunca foi deprimida, mas começa a apresentar depressão após os 60 anos.
Demência tem prevenção
De acordo com a especialista, cerca de 60% dos casos de demência poderiam ser prevenidos se fatores de risco fossem tratados ao longo da vida. Controle da pressão, diabetes, colesterol, tratamento da depressão, combate ao sedentarismo, estímulo intelectual, correção da perda auditiva e visual, além do convívio social são essenciais neste contexto. Lembrando que apenas cerca de 5% dos casos são genéticos e a maioria está ligada ao estilo de vida, o que é uma boa notícia, pois é possível agir e prevenir.