Estudo publicado na revista Frontiers in Psychology constatou que os homens choram mais por esportes, especialmente pelo futebol, do que pelo fim de um relacionamento amoroso
É possível que você veja um flamenguista chorando diante da partida contra o Paris Saint-Germain que acontecerá na tarde desta quarta-feira, em Doha, no Catar, na disputa pela taça do torneio Intercontinental. Mas por que o futebol aflora as emoções das pessoas, especialmente tratando-se dos homens? Um estudo publicado na revista Frontiers in Psychology revelou uma tendência surpreendente na expressão emocional masculina: os homens choram até quatro vezes mais por futebol do que por uma separação amorosa.
A pesquisa, intitulada “As crenças sobre as emoções estão ligadas às crenças sobre o gênero: o caso do choro masculino nos esportes competitivos”, liderada pela pesquisadora Heather J. MacArthur, investiga por que os torcedores vivenciam com tanta intensidade as vitórias ou derrotas de seus times.
O estudo, ao desafiar estereótipos de gênero que sugerem que os homens não devem demonstrar vulnerabilidade, constatou que os esportes competitivos, especialmente o futebol, criam um contexto socialmente aceito para que os homens expressem emoções em público.
— O choro masculino parece ser particularmente evidente em contextos como os esportes de competição — explicou MacArthur.
A chave, segundo a pesquisa, está na percepção de masculinidade associada ao esporte. MacArthur levantou a hipótese de que o choro dos homens seria considerado mais aceitável em contextos percebidos como masculinos. De fato, o futebol é visto como uma atividade estereotipicamente masculina, o que permite aos homens liberar sentimentos como alegria, frustração ou tristeza sem sofrer julgamentos severos.
Em contraste, em situações pessoais consideradas mais femininas ou vulneráveis, como o fim de um relacionamento amoroso ou a perda de um ente querido, a expressão aberta da dor costuma ser interpretada como fraqueza, levando muitos homens a se reprimirem.
Senso de identidade
O estudo destaca que os torcedores relatam vivenciar as vitórias e derrotas de seus times com uma intensidade emocional maior do que outros marcos pessoais cruciais, inclusive comparáveis ao nascimento de um filho. Esse fenômeno evidencia o profundo vínculo emocional e o senso de identidade que o esporte é capaz de gerar.
A ciência já estabeleceu que, em geral, as mulheres choram com mais frequência do que os homens ao longo do ano. No entanto, este estudo específico mostra que, quando o contexto é o adequado, como um grande evento esportivo, a expressão emocional masculina pode ser tão intensa quanto, ou até mais, do que em outras áreas da vida.
A pesquisa de MacArthur conclui que “as expectativas culturais de masculinidade continuam exigindo que os homens expressem suas emoções de maneiras que as diferenciem claramente da mulher e da feminilidade”. O futebol, portanto, se consolida como um desses espaços “seguros” e socialmente validados onde os homens podem vivenciar e demonstrar um amplo espectro de sentimentos sem contrariar mandatos rígidos de gênero.
O achado convida a uma reflexão mais ampla sobre como a sociedade constrói e permite a expressão emocional masculina e sobre o papel dos esportes como uma válvula de escape singular para a saúde emocional dos homens.
Fonte: O Globo