Por Tatiana Santos
No mês em que o calendário se tinge de preto para conscientizar a população sobre o melanoma (tipo mais agressivo de câncer de pele) a história do professor de judô itabirano Ricardo “Bobby” de Freitas ressurge não só como uma lembrança de dor, mas como um alerta pela vida. Em entrevista àRádio Pontal, Regina Santos, irmã do professor, compartilhou os detalhes da batalha de quase dois anos do sensei, que morreu em fevereiro de 2026, aos 49 anos. O relato de Regina é uma chamada à atenção sobre como sinais aparentemente simples e a demora no acesso a tratamentos podem mudar o destino de uma família.
A trajetória da doença começou silenciosamente. Atleta, não fumante e com hábitos saudáveis, Bobby percebeu uma mancha escura na planta do pé enquanto caminhava, entre o final de novembro e início de dezembro de 2024. Regina relembra que ele trabalhava descalço a vida toda, andando nos tatames e imaginou que seria um bicho de pé ou uma verruga. Amigos e pessoas próximas tentaram tratar a mancha como algo simples. A lesão inflamou, aumentou e foi gerando mais dor.
“Quando ele viu que não tinha mais solução caseira, ele realmente procurou um dermatologista. E aí quando procurou o dermatologista, de cara, na consulta, o médico já viu que não era algo tão simples, que era algo que requeria uma atenção diferenciada”, recorda. O diagnóstico foi de um melanoma lentiginoso acral, uma forma grave da doença que surge em extremidades como palmas das mãos, plantas dos pés e unhas.

SUS não cobriu tratamento
Além da agressividade do câncer, a família enfrentou a burocracia do sistema de saúde. O tratamento prescrito, que seria de 18 sessões de imunoterapia com custo de quase R$ 30 mil cada, não era coberto pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Ricardo precisou recorrer à Justiça no final de dezembro de 2024, para garantir o direito à medicação.
“Em dezembro de 2025, quase um ano após a descoberta da doença, ele recebeu a primeira dose. Das 18 que estavam prescritas, ele conseguiu tomar três antes do óbito. Infelizmente, ele recebeu o tratamento tardio”. O câncer já havia se espalhado para os pulmões, se manifestando através de uma metástase com tosse persistente. Mesmo com o diagnóstico avançado, o sensei Bobby não baixou a guarda e foi sustentado emocionalmente pela família, amigos e admiradores de seu trabalho.
Maio Preto para conscientização
Agora Regina dedica seus esforços a apoiar o projeto de lei que institui o Maio Preto em Itabira, aprovado pela Câmara de Vereadores e aguardando sanção. O projeto visa dar ao melanoma a mesma visibilidade que o Outubro Rosa dá ao câncer de mama. A mensagem principal da família é para que as pessoas não ignorem sinais e não se utilizem de tratamentos caseiros.
Segundo ela, é fundamental estar atento aos sinais na pele, unhas e nas plantas dos pés. Regina finaliza ressaltando que a pele é o maior órgão do corpo e muitas pessoas morrem sem nunca ter ido a um dermatologista. O recado que ela deixa é que quem procura acha e quem acha tem oportunidade de se tratar. “Infelizmente, meu irmão encontrou tardiamente. Então, outras pessoas que enxergarem esse sinal e conseguirem procurar o recurso correto, têm chance de vida”.
Influência positiva
Conhecido por projetos sociais que resgatavam crianças das drogas e das ruas através do judô, ele aplicou a disciplina do esporte em seu próprio tratamento. Regina conta que ele nunca falou em desistir, pois tinha sonhos de casar com a noiva Luana, ter filhos e estava no auge da carreira. O nome do esportista permanece vivo entre os alunos que agora seguem carreira no esporte por amor ao seu ensinamento. Para a irmã de Ricardo, o legado que deixou é uma mensagem de esperança, pois mesmo diante da doença ensinou a importância de não perder a fé e seguir em frente.