Tatiana Santos
O professor e supervisor escolar itabirano, Lucas Rocha de Brito Rodrigues, lançou o livro ‘Cidade, Literatura e Mineração: experimentos com etnografia em Itabira do Mato Dentro’ no último dia 20 de junho, na Casa de Drummond. A obra inédita traz uma visão crítica da cidade de Itabira diante da convivência com as ameaças do encerramento da exploração do minério de ferro.
Ao mesmo tempo, segundo o autor, há a incidência de ações ligadas à literatura que trazem o nome de Carlos Drummond de Andrade, como o Flitabira. A obra é resultado de uma pesquisa de mestrado de Lucas, dissertação que foi feita no âmbito do programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Publicado pela Editora Autografia, a obra foi lançada por meio de projeto aprovado na Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), realizado pelo Ministério da Cultura, com apoio da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA) e Prefeitura de Itabira.

Lucas centralizou o livro em um trabalho de campo, onde buscou respostas para o questionamento de itabiranos sobre a possibilidade de encerramento da exploração mineral pela Vale no município. Essa procura se deu a partir de entrevistas junto à comunidade, na qual tentou entender a questão.
O trabalho envolveu conversas com garis, professores, pessoas que trabalharam por décadas na mineração, cidadãos que transitavam pelas ruas etc. A partir disso, Lucas juntou as entrevistas com as perspectivas teóricas de outros autores que falavam sobre Itabira e Drummond. “Nós temos em Itabira um caso muito emblemático, em que a gente tem uma cidade há mais de 80 anos explorada pelo extrativismo de minério de ferro, e ao mesmo tempo, é uma cidade que tem um legado poético, um legado literário muito forte, atrelado à figura do Drummond”, argumenta.

Literatura que dá voz
Apesar de reconhecer a importância de Drummond para a literatura, para Itabira e o mundo, o foco central do trabalho de Lucas não é sobre o poeta. Ele até passa pelo escritor, discute questões ligadas ao poeta, mas defende que o foco é ainda maior, denunciando a exploração mineral. Em uma referência ao poema Confidência do Itabirano, Lucas analisa: “Ele [Drummond] estava construindo mesmo uma linguagem literária para dizer que a Itabira que ele conheceu não existia mais. Não existia mais por conta da exploração, por conta desse extrativismo predatório que só pensa no lucro e vai terminando com a cidade, vai matando os seres, as vidas, as existências”.
A devastação ambiental em detrimento do lucro e a versão das comunidades impactadas são questões que permeiam a obra do professor, que tenta dar voz às populações rodeadas pela mineradora. “As pessoas que sofrem com o terrorismo de barragem, as que são retiradas de suas casas injustamente, as pessoas que sofrem com o impacto de saúde mental, de saúde física, poluição. Então, esse outro lado também tem que ter estar na discussão”, defende o professor, que pretende trazer uma reflexão sobre até que ponto o impacto ambiental pode se sobressair à segurança e ao futuro das comunidades. Exemplares do livro foram doados aos leitores no dia do lançamento. Os interessados podem ter acesso à obra através de bibliotecas públicas de Itabira, como a biblioteca da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e do Memorial Carlos Drummond de Andrade.