Por Marcello Ambrósio
O manobrista responsável pela manutenção da piscina da Academia C4 Gym afirmou à polícia que realizava a aplicação de produtos químicos seguindo orientações enviadas por um dos sócios da unidade por meio do WhatsApp.
Severino José da Silva, de 43 anos, prestou depoimento nesta terça-feira (10) no 42º Distrito Policial, no Parque São Lucas. Ele é investigado no caso da morte da professora Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, que passou mal após uma aula de natação no último sábado (7). Outros cinco alunos, entre eles um adolescente, também apresentaram sintomas de intoxicação.
Segundo o depoimento, Severino trabalhava como manobrista havia cerca de três anos, mas acumulava a função de responsável pela manutenção da piscina. Ele relatou que nunca recebeu treinamento técnico, habilitação específica ou equipamentos de proteção individual (EPIs) para manusear produtos químicos. Ainda de acordo com ele, o proprietário tinha conhecimento dessa situação.
O funcionário contou que aprendeu o procedimento com o antigo manobrista. A rotina consistia em testar a água, fotografar o resultado e enviar a imagem ao sócio, identificado como Celso, que indicava quais produtos deveriam ser utilizados e em qual quantidade.
Aplicação de cloro e mal-estar
Na quinta-feira anterior ao caso, Severino percebeu que a água estava turva e comunicou o fato ao proprietário. Na sexta-feira, após as aulas, recebeu orientação para aplicar cloro na piscina maior.
No sábado, com a água ainda turva, ele realizou nova medição enquanto havia alunos na piscina. Segundo relatou, recebeu a ordem para aplicar de seis a oito medidas do produto HIDROALL Hiperclor 60.
O manobrista afirmou que não despejou o produto diretamente na piscina. Disse que preparou a solução em um balde com água da própria piscina, adicionou seis medidas do cloro e deixou o recipiente próximo à borda, a cerca de dois metros, antes de retornar às suas funções. Não há confirmação se o produto chegou a ser lançado na água.
Cerca de dez minutos depois, ele percebeu um forte cheiro de cloro e movimentação incomum na academia. Alunos começaram a apresentar irritação nos olhos, na garganta e dificuldade respiratória. O próprio funcionário relatou ter sentido os mesmos sintomas.
A academia foi evacuada, e as vítimas foram socorridas por meios próprios, após pedidos de ajuda à Guarda Civil Metropolitana. Segundo o depoimento, Samu e Corpo de Bombeiros foram acionados, mas não compareceram ao local.
Investigação e posicionamento da academia
Severino afirmou que tentou contato com o sócio assim que percebeu o mal-estar dos alunos, mas só recebeu resposta horas depois. Ao relatar a situação, disse que ouviu como resposta apenas: “paciência”.
Ele também informou que o produto utilizado havia sido adotado recentemente por decisão do proprietário, que estaria testando um novo tipo de cloro.
A polícia investiga se a manipulação de produtos químicos em ambiente fechado e com pouca ventilação contribuiu para a intoxicação dos alunos.
A defesa da academia não foi localizada até a última atualização. Em nota publicada nas redes sociais, a direção lamentou o ocorrido, afirmou ter prestado atendimento imediato às vítimas e declarou que está colaborando com as investigações. A empresa informou ainda que possui alvará da Vigilância Sanitária, Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) e registro no Conselho Regional de Educação Física (CREF).
O caso segue sob investigação.
