Rompimento da barragem de Fundão, da Samarco, completa uma década nesta quarta-feira (5).
Quando a lama da Samarco chegou a Bento Rodrigues, subdistrito de Mariana destruído pelo rompimento da barragem de Fundão, dez anos atrás, o comerciante Mauro Marcos da Silva, nascido e criado na comunidade, não imaginava a dimensão da tragédia.
“Lembro do meu pai dizendo: ‘Não se preocupe, quando baixar essa água a gente lava e reconstrói tudo de novo’. Mas a gente não imaginava que era rejeito de mineração. É muito pior que água”.
Ao todo, 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro e sílica jorraram da barragem de forma imediata. A avalanche de lama chegou com violência a Bento Rodrigues, onde soterrou construções centenárias e provocou mortes – de plantações, animais e pessoas. Das 19 vítimas que morreram na tragédia, cinco estavam no subdistrito, incluindo duas crianças.
Uma década depois, o rastro de destruição daquele 5 de novembro de 2015 permanece na comunidade. Dos mais de três séculos de história, restaram apenas destroços, ruínas tomadas por mato e casas sem portas e janelas com lama incrustada na parede, além de silêncio e memórias. Quem vivia em Bento Rodrigues nunca mais pôde voltar.
“Foi o momento da virada. Minha vida desmoronou em alguns segundos”, disse Mauro.
A costureira e dona de casa Maria Aparecida da Silva Gomes se mudou há dois anos, mas ainda tenta se acostumar. Além da saudade do velho Bento, a presença constante de funcionários da Samarco e operários na nova comunidade, que continua em obras, prejudica a adaptação.
“Parece que a gente está numa casa que não é da gente. O pessoal nosso aqui do Bento está doido que terminem as obras, que o pessoal da empresa vá embora e fique só a comunidade. Para a gente levar a vida da forma mais normal possível, porque acho que normal não vai ser mais não”, disse.
Vida era mais simples e feliz, dizem moradores
A lama da Samarco nunca mais saiu também da comunidade de Paracatu de Baixo. Casas foram esvaziadas, e a escola não recebeu mais alunos.
Os moradores foram reassentados em uma nova área, a cerca de 30 km de Mariana, mas a vida já não é tão simples como era até novembro de 2015. Na antiga comunidade, as famílias tiravam sustento da terra, e no novo Paracatu elas não conseguem manter plantações ou criações de animais. Outro problema são os custos para manter os imóveis.
“A gente era feliz. Lá eu tinha minha sorveteria, minha casa, onde plantar. Tinha galinha, tinha tudo. Lá nós estávamos em área rural, hoje estamos em área urbana. A conta de luz é cara, o IPTU é caro, lá a gente nem pagava IPTU, porque os terrenos eram passados de geração para geração”, falou o presidente da Associação dos Moradores da Comunidade de Paracatu, Romeu Geraldo de Oliveira.
A aposentada Vera Lúcia da Paixão passa a maior parte do tempo sozinha – dois dos três filhos só encontraram trabalho na sede de Mariana. A maior saudade dela é a plantação da antiga casa que teve que abandonar.
“Lá eu tinha cana, horta, fruta. Tinha banana, galinha, porco. A gente plantava, a terra era muito melhor. Aqui, não, aqui eu tenho que começar tudo de novo”.
Fonte: G1