Por Tatiana Santos
Combater a violência exige um olhar mais atento para as mulheres neurodivergentes, ou seja, autistas, pessoas com TDAH, bipolaridade etc, que enfrentam desafios ainda maiores. Um dado alarmante torna o tema ainda mais importante, já que nove em cada 10 mulheres autistas já sofreram algum tipo de violência sexual, segundo o Atlas da Violência 2021, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), juntamente com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Amanda Teixeira, advogada e especialista em direitos das pessoas com deficiência e inclusão, aborda o assunto e cita a dificuldade de algumas mulheres atípicas entenderem que alguma atitude se configura em uma violência.
Diagnosticada tardiamente com autismo e TDAH, Dra. Amanda traz um olhar que une a técnica jurídica à vivência pessoal. Segundo a especialista, o primeiro passo para o debate é desmistificar o termo neurodivergência. “Não se trata de defeito, de doença, de algo que vai incapacitar totalmente aquele indivíduo. Se trata de um transtorno do neurodesenvolvimento. É uma forma diferente de interação com o mundo”, explica.
O preço do mascaramento social
Um ponto crítico citado pela profissional é por que tantas mulheres recebem o diagnóstico apenas na vida adulta. Ela aponta que a pressão cultural por conformidade é o fator determinante e ressalta que meninas tendem a mascarar mais quem elas são, porque culturalmente, “nós somos preparadas para ser as meninas perfeitas, as mulheres perfeitas. Então, nós chamamos isso de mascaramento social.”
Esse esforço exaustivo para se adequar a padrões sociais, muitas vezes mascara o sofrimento emocional e adia a busca por um suporte adequado, deixando essas mulheres em um estado de vulnerabilidade prolongada.
A relação entre a neurodivergência e a maior exposição à violência é preocupante, segundo Dra. Amanda. Ela aponta que características comuns, como a dificuldade de identificar sinais de manipulação, contribuem para esse cenário. “Muitas mulheres neurodivergentes vivem sofrimento, baixa autoestima, isolamento social e dificuldades de relacionar com as pessoas. Então, às vezes, se tornam presas muito fáceis de ser dominadas, porque elas têm dificuldade de reconhecer os sinais de manipulação”, alerta.
Busca por uma virada de chave
Superar esse ciclo não é uma jornada que a mulher deve percorrer sozinha. A advogada enfatiza que a culpa, muitas vezes suprimida pela própria vítima, que acredita ser uma pessoa difícil de lidar, é um dos maiores obstáculos para romper o silêncio.
“A virada de chave, normalmente, vem com a rede de apoio. Você precisa de alguém para alertar que você está sofrendo algum tipo de violência. E daí, você começa a perceber, entender que aquela pessoa está te manipulando de alguma maneira ou que realmente está te agredindo e que a culpa não é sua”, conclui.
A mensagem central da advogada é clara de que a conscientização sobre a neurodiversidade não é somente uma questão de inclusão, mas é algo essencial para a proteção da vida e da dignidade de das mulheres.