Tatiana Santos
O próximo final de semana em Nova Era está reservado para a nostalgia e os sentimentos de família com a exibição do documentário ‘Nós queremos uma valsa’. O filme será apresentado gratuitamente no Museu de Arte e História do município nos dias 3 e 4 de outubro (sexta-feira e sábado, respectivamente), às 20h, e no dia 14 no Teatro Municipal de Santa Luzia, Região Metropolitana de Belo Horizonte.
A obra é um retrato do envelhecimento dos avós da diretora, Júlia Miriam Pires Lage, que fez registros do cotidiano do casal Hernane e Míriam, a vida diária, a relação com a família, as memórias que a avó guardava nas canções que entoava, além de registros fotográficos. O filme é contado a partir de material captado entre 2010 e 2015, quando os idosos faleceram. Conforme a diretora, o avô já foi vereador em Nova Era e a avó era professora primária aposentada.
O casal era muito unido e até mesmo a partida de ambos aconteceu em datas muito próximas: Hernane se foi no dia 9 de junho de 2015, aos 91 anos, e Míriam deixou esta terra no dia 15, ou seja, seis dias depois, aos 90 anos. Se o casal ainda estivesse vivo, teria completado 101 e 100 anos, respectivamente.

Como nasceu o documentário
Júlia é formada em design de produtos. Ela conta que durante sua graduação começou a estudar fotografia e trabalhava fazendo seus próprios registros. “Esse documentário surgiu a partir de uma experiência que eu quis realizar com o meu avô, porque na época, ele estava sofrendo uma degeneração neurológica, e estava perdendo, aos poucos, a memória”, detalha.
Quando percebeu que o idoso estava se esquecendo que tinha netas, ela quis o estimular as lembranças dele a partir de fotografias. Criou um álbum de fotos com lembranças dos últimos 20 anos da vida dele, época em que Júlia mais conviveu com os avós. Depois, fez vídeos das conversas para tentar ativar a memória dele a partir de perguntas. Assim, nasceu a proposta do documentário.
Em relação à avó, Júlia percebeu que ela cantava o tempo todo, fosse lavando a louça, arrumando a casa ou em outras tarefas domésticas. “Ela sempre estava cantando algumas canções que são da vivência dela como professora do primário, mas também do gosto dela, as músicas que ela gostava da juventude dela. Por eu estar gravando o meu avô, escutei a minha avó cantando e pensava: ‘essas músicas que a minha avó canta eu só escuto através dela, eu nunca escutei em outro lugar e elas vão sumir’. E aí eu comecei a querer registrar os cantos dela também”, descreve a diretora. Durante o processo de produção do filme, Júlia diz que se emocionou várias vezes ao revisitar seu passado com os avós e que tudo foi como uma viagem no tempo.

Um olhar mais cuidadoso com os idosos
Para a produtora, a finalidade da obra é despertar um olhar de mais amor e cuidado com os mais velhos, para que as pessoas percebam todo o legado que eles têm para oferecer. Segundo ela, às vezes, a sociedade não pensa nessa questão diante de uma pessoa mais velha, que, aos poucos, vai ficando também mais silenciosa, mas que ainda assim, tem muito a ensinar.
Por fim, Júlia acredita que de alguma maneira o filme levará à identificação e irá conectar todas as pessoas que o assistirem: “O documentário vai ser uma forma de trazer um olhar mais de contemplação da família, um olhar de mais carinho, de mais cuidado, especialmente com os idosos. E entender que a fase da vida, quando a gente atinge uma idade maior, é um outro tempo, os processos são mais lentos, existe um silêncio, mas tem muita vida ali, a vida está ali, presente, e tem muito a nos ensinar”, finaliza.
A obra foi produzida com recursos federais da Lei Paulo Gustavo e realizado por meio da Secretaria de Cultura e Turismo (Secult) de Minas Gerais.