Por Marcello Ambrósio
O que deveria ser uma demonstração de força avassaladora está se transformando em um desafio logístico e financeiro sem precedentes para Washington. Em apenas 14 dias de conflito direto contra o Irã, os Estados Unidos já teriam esgotado o equivalente a anos de produção de munições críticas, segundo revelações do jornal Financial Times. O ritmo frenético de lançamentos levanta dúvidas sobre a sustentabilidade de uma guerra prolongada e a capacidade de reposição do arsenal americano.
A Hemorragia dos Tomahawks
O centro da preocupação reside nos mísseis de cruzeiro Tomahawk. Conhecidos por sua precisão cirúrgica em ataques de longo alcance, esses projéteis tornaram-se o símbolo do “gasto massivo” desta campanha. Fontes militares indicam que a Marinha dos EUA sentirá o impacto desse consumo por décadas, uma vez que a taxa de utilização atual supera drasticamente a capacidade de fabricação das indústrias de defesa.
Os números são superlativos:
- Gasto Inicial: O Pentágono reportou ter queimado US$ 11,3 bilhões (cerca de R$ 58,7 bilhões) apenas na primeira semana.
- A “Conta” dos Primeiros Dias: Estima-se que os dois primeiros dias de bombardeios custaram US$ 5,6 bilhões.
- O Dilema Tecnológico: A primeira onda de ataques priorizou bombas planadoras AGM-154, que custam até US$ 836 mil por unidade. Com o estoque minguando, as Forças Armadas tentam migrar para o uso de kits JDAM, consideravelmente mais baratos (cerca de US$ 39 mil), mas que exigem uma aproximação maior dos alvos, aumentando o risco para os pilotos.
O Contraste entre o Front e a Casa Branca
Enquanto analistas e generais, como o chefe do Estado-Maior Conjunto, Daniel Caine, já alertavam para o risco de um desabastecimento — agravado pelo suporte contínuo à Ucrânia e a Israel —, a narrativa oficial do governo Trump permanece inabalável.
A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, e o secretário de Defesa, Pete Hegseth, negam veementemente qualquer escassez. Segundo o discurso oficial, os estoques são “mais do que suficientes” para cumprir os objetivos definidos pelo presidente. No entanto, o mercado e o Congresso observam com ceticismo: o conflito iniciado em 28 de fevereiro já mostra sinais de desgaste físico e material.
Um Precedente Perigoso
A guerra contra o Irã ocorre em um momento de extrema pressão sobre a base industrial de defesa global. A queda de um avião de reabastecimento no Iraque e incidentes em porta-aviões, reportados recentemente, somam-se ao custo das munições para pintar um quadro de fadiga operacional rápida.
O Irã, por sua vez, já sinaliza condições para um cessar-fogo, exigindo reparações e garantias de segurança. Enquanto a diplomacia não avança, o Pentágono continua a assinar cheques de bilhões de dólares, testando não apenas a resistência do inimigo, mas os limites do próprio cofre e dos seus depósitos de armas.
