Por Tatiana Santos
A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de sociedades de pediatria de manter o açúcar fora da dieta de bebês até os dois anos não é uma orientação boba. Os primeiros anos de vida funcionam como uma janela de programação metabólica, onde o corpo da criança está definindo suas preferências alimentares e o funcionamento do seu metabolismo para o resto da vida.
Diferente do açúcar das frutas (a frutose), que é saudável e liberado in natura, o açúcar adicionado (cristal, mascavo, refinado) e os alimentos ultraprocessados agem de forma agressiva no paladar infantil. Eles criam um padrão de doçura artificialmente alto que desinteressa a criança pelos alimentos saudáveis e reais.
A pediatra Camila Caetano enfatiza o papel essencial desse período na construção da saúde futura: “Os primeiros anos de vida são fundamentais para a programação metabólica e a formação das preferências alimentares. Até os dois anos não estamos alimentando uma criança, estamos ensinando o cérebro dela, o paladar e seu metabolismo a fazer escolhas que podem acompanhá-la para o resto da vida”, alerta.
A armadilha dos ultraprocessados
Além do açúcar, o sal adicionado em excesso e os temperos industriais, como os encontrados em macarrões instantâneos, sobrecarregam os rins dos bebês que ainda estão em maturação. Esses produtos geram uma ‘explosão’ de sabor química que anestesia o paladar para a suavidade dos vegetais e legumes, por exemplo. Para diferenciar o que realmente deve entrar na despensa, a nutricionista dá uma dica de ouro para os pais na hora de irem ao supermercado. É fundamental olharem atentamente a lista de ingredientes nos rótulos: “O que diferencia os alimentos ultraprocessados, alimentos processados, os alimentos in natura é a quantidade de ingrediente que eles têm. (…) Então sempre procurar, sempre ler rótulo, é muito importante ler rótulo. Às vezes o alimento fala assim ‘não tem açúcar’. Você vai lá, lê o rótulo, tem lá açúcar invertido, maltodextrina”, desmitifica.
Essa quantidade de aditivos químicos e compostos sintéticos nos rótulos cria o que a ciência chama de alimentos hiper palatáveis, que viciam as papilas gustativas ainda em formação, como explica a pediatra. Quando a criança se habitua a essa intensidade artificial, o cérebro passa a rejeitar os sabores mais sutis e ligeiramente amargos dos vegetais, dificultando o consumo de ferro, vitaminas e minerais. Com isso, pode haver carências nutricionais que costumam vir acompanhadas do ganho de peso excessivo.
Os impactos podem trazer ainda risco de desenvolvimento de doenças crônicas na vida adulta. Proteger o organismo da criança reduz as chances futuras de diabetes, hipertensão, cáries e obesidade.