Tombada pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município, a estrutura fica na praça Raul Soares, 203
Perto de construções verticalizadas e de novos empreendimentos comerciais, um imóvel histórico resiste ao tempo e às mudanças da capital mineira. Tombada pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município, a estrutura, localizada na praça Raul Soares, 203, na região Centro-Sul, abriga a Primeira Igreja Batista de Belo Horizonte, que celebra 113 anos de existência. Para chegar até aqui, porém, houve resistência. Os vitrais, que hoje são apontados como um dos diferenciais do local, chegaram a ser apedrejados pela vizinhança tradicionalmente católica da época, de acordo com a prefeitura da cidade. Além disso, o então Arcebispo de Belo Horizonte, Dom Cabral, chegou a alegar que a instalação seria uma ofensa ao sentimento religioso dos belo-horizontinos, solicitando seu embargo para o prefeito Juscelino Kubitschek.
“Esses 113 anos de história dizem muita coisa”, inicia o atual pastor da igreja, Ruan Noce Gomides. “Em 113 anos você atravessa guerras mundiais, crises epidêmicas, crises econômicas. Completar 113 anos é dizer o quanto a nossa história é consolidada”, afirma ele.
Apesar da tentativa de impedir a instalação da igreja em uma das principais praças de Belo Horizonte, o templo resistiu. Conforme destaca a prefeitura da capital, o então prefeito Juscelino Kubitschek, ao contrário do que foi solicitado, interveio para que as obras de construção permanecessem. O imóvel ficou pronto em 1940 — e os fiéis, que antes frequentavam os antigos templos da igreja em outros locais, como no bairro Pouso Alegre, atual Colégio Batista, ocuparam o local. Muitos de seus descendentes continuam até os dias de hoje. Mas, mais do que o estabelecimento de um edifício histórico, os frequentadores estavam construindo história também em outros sentidos.
“O tombamento do local diz respeito ao prédio em si. Com isso, há a proteção da edificação, do caráter arquitetônico. No entanto, a questão vai além disso: é um edifício ocupado por gente, utilizado por gente, vivido por gente, que se manteve por muitos anos por causa do seu uso. É uma ocupação eficaz também pela vivência que possui, por essa sociedade que esteve lá por mais de 100 anos. É um lugar de memória. Imagine quantas pessoas passaram por ali, a tudo o que sobreviveram”, ressalta o historiador André Bueno.
Conforme o pastor Ruan Noce Gomides, essa comunidade também atuou de forma a servir Belo Horizonte. O templo histórico celebrou muitas formaturas de estudantes e de policiais militares, por exemplo. A ideia, segundo o religioso, sempre foi também oferecer o espaço para a população.
“Sempre quisemos contribuir para o crescimento de Belo Horizonte. Uma das principais visões que a igreja tem é de ter uma cidade transformada, com mais amor, alegria e paz. E o maior ensino é o exemplo. Quando nós cedemos o espaço, acolhemos as pessoas”, diz ele.
Características do edifício
A Primeira Igreja Batista de Belo Horizonte foi projetada pelo engenheiro, arquiteto e membro Alberto Mazzoni Andrade. A edificação tem partido arquitetônico retangular desenvolvido em profundidade e alto pé-direito, além de uma forte e vertical presença da torre principal e influência neogótica. O revestimento das fachadas em característico pó-de-pedra é uma das características mais marcantes. A tonalidade escura traz solidez e robustez, compensada pela leveza das linhas. Internamente, há o tanque onde são feitos os batismos. E às celebrações seguem a mesma lógica do tradicionalismo. “É uma igreja que não está fundamentada em modismos, mas, sim, na palavra de Deus, que é eterna. Por isso, tem resistido a todas as intempéries que podem acontecer”, diz o pastor Ruan Noce Gomides.
E essa força se multiplicou. Conforme o religioso, a Primeira Igreja Batista de Belo Horizonte é praticamente “a mãe” das outras igrejas batistas do município e teve uma influência muito grande no “nascimento” delas. “É uma igreja mais tradicional e mais conservadora no seu jeito de ser, mas também é muito viva, alegre, tem vários jovens”, afirma.
Por falar em juventude, a igreja se adaptou para alcançar mais pessoas. Foram oito pastores ao longo de 113 anos, buscando todos os meios para propagar a fé. Hoje, a primeira Igreja Batista de Belo Horizonte também está nas redes sociais, como Tik Tok, Instagram e Facebook, e transmite seus cultos ao vivo.
“Temos de estar onde as pessoas estão, encontrar formas de comunicar com a nova geração. Nossa missão é levar as pessoas a conhecerem Jesus Cristo e a experimentarem uma nova vida. E permanecemos no que é a essência, na Bíblia”, diz o pastor.
História dinâmica
A Primeira Igreja Batista de Belo Horizonte, assim como muitos outros templos de diversas religiões, faz parte da história da capital mineira, como ressalta o historiador André Bueno. E isso é muito importante. De acordo com ele, um local com mais de 100 anos de memória tem um peso grande para a cidade. “O município que tem história e memória nunca morre”, conclui.
FONTE: OTEMPO