Por Marcello Ambrósio
A vida da delegada Amanda Souza, da Polícia Civil do Pará, foi marcada por uma tragédia imensurável em julho de 2023. Após decidir encerrar um relacionamento abusivo de 20 anos, ela foi alvo do que especialistas chamam de violência vicária — quando o agressor atinge pessoas próximas à mulher, especialmente os filhos, para causar o máximo sofrimento possível. Naquela tarde fatídica, o ex-marido, após enviar uma mensagem dizendo que o futuro dela seria de “tristeza e solidão”, matou os dois filhos do casal, de 9 e 12 anos, e tirou a própria vida.
Ao relembrar o crime, Amanda traça paralelos com um caso recente ocorrido em Itumbiara (GO), onde o secretário municipal Thales Machado também assassinou os dois filhos antes de se suicidar. O que mais chocou a delegada ao ler sobre o novo episódio foi a reação de parte da sociedade nas redes sociais. Comentários cruéis tentavam justificar a atitude do pai ou culpar a mãe pela tragédia, citando supostas traições ou comportamentos da mulher. Para Amanda, essa “falta de humanidade” é um reflexo do machismo estrutural, que busca legitimar a violência masculina e destruir a reputação da vítima até mesmo no luto.
A trajetória de Amanda revela como o abuso pode ser dissimulado por décadas. Durante 20 anos, ela viveu sob um controle absoluto que era mascarado como “cuidado”. O comportamento do ex-marido tornou-se explícito e agressivo apenas quando ela buscou autonomia profissional ao se tornar delegada e se mudar para o Pará. Ao dizer “não” ao casamento, ela se tornou o alvo de um homem narcisista que preferiu aniquilar a própria família a aceitar a perda do controle sobre a companheira.
Hoje, aos 43 anos, Amanda Souza transformou sua dor em uma missão de vida. Além de atuar na polícia em Belém, ela planeja estudar a violência vicária em um mestrado para ajudar na criação de políticas públicas e na identificação de padrões de comportamento de abusadores. Seu objetivo é levar informação para que outras mulheres consigam identificar sinais de perigo, busquem independência financeira e emocional, e consigam traçar estratégias de saída seguras antes que o ciclo de violência atinja um ponto sem retorno.
