Por Marcello Ambrósio
Uma descoberta científica feita nos laboratórios da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) está abrindo um novo capítulo na medicina regenerativa mundial. A polilaminina, uma substância desenvolvida a partir de proteínas naturais do corpo humano, recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar seus primeiros testes clínicos em humanos. O medicamento é visto como uma promessa real para pacientes que sofreram lesões graves na medula espinhal e perderam os movimentos.
A polilaminina é uma versão modificada em laboratório da laminina, uma proteína essencial produzida principalmente na placenta durante a gestação e que desempenha um papel crucial na formação do sistema nervoso do embrião. A produção do medicamento conta com uma parceria ética: gestantes doam placentas que seriam descartadas após o parto para que a proteína seja extraída e purificada. Na prática, a molécula funciona como uma espécie de “andaime” biológico, oferecendo o suporte necessário para que os axônios — as extensões dos neurônios que são rompidas em acidentes — consigam crescer novamente e restabelecer a comunicação nervosa.
Os resultados obtidos até agora em modelos experimentais e testes-piloto são descritos por pesquisadores como “sem precedentes”. Em um estudo preliminar com oito pacientes que apresentavam lesões medulares completas, onde a chance de recuperação espontânea é mínima, cerca de 75% dos voluntários recuperaram algum nível de controle dos movimentos após a aplicação da substância. Esse índice é drasticamente superior aos 15% de melhora observados em pacientes que seguem apenas os tratamentos convencionais disponíveis atualmente.
Apesar do entusiasmo gerado por casos recentes, como o de uma nutricionista que voltou a mexer o braço após receber a proteína via liminar judicial, a comunidade científica prega cautela. A fase 1 dos estudos clínicos, que começa agora, foca estritamente na segurança do fármaco para garantir que não existam efeitos colaterais graves. O cronograma da farmacêutica Cristália, que produz o medicamento em conjunto com a UFRJ, prevê que todas as etapas de testes sejam concluídas até 2028, quando o registro definitivo poderá ser solicitado.
Os especialistas reforçam que a polilaminina não age sozinha e depende diretamente de uma reabilitação intensiva. Como os novos nervos precisam ser “ensinados” a funcionar, a fisioterapia é considerada parte obrigatória do processo de cura. Embora o caminho até a comercialização nas farmácias e hospitais ainda leve alguns anos, a autorização dos testes em humanos já é considerada o marco mais importante em décadas de pesquisa brasileira sobre o tema.
