Por Tatiana Santos
Há praticamente 16 anos atuando em Itabira, a Fazenda da Esperança desenvolve um trabalho focado no acolhimento e na recuperação de homens que buscam se libertar de vícios de álcool e drogas. O local funciona como uma comunidade terapêutica de portas abertas, onde o processo de transformação é construído ao longo de um ano de convivência, marcado pela restauração da dignidade e da esperança de cada acolhido e de suas famílias. Não há distinção religiosa, ou seja, a unidade acolhe sem preconceitos.
Para ser atendida na unidade da Fazenda da Esperança em Itabira, a pessoa precisa atender a critérios específicos estabelecidos pela instituição. O principal deles é a voluntariedade, ou seja, o indivíduo deve desejar o tratamento e expressar essa vontade formalmente por meio de uma carta escrita de próprio punho. O perfil de atendimento abrange homens na faixa etária dos 18 aos 59 anos. Pessoas acima desta idade também podem ser recebidas, desde que apresentem condições de realizar o processo residencial e haja permissão do Ministério Público. Por limitações de infraestrutura e demandas específicas de acompanhamento, a unidade não realiza o acolhimento de menores de idade, nem de pessoas com comorbidades graves que necessitem de suporte ambulatorial contínuo. Por ano são acolhidas mais de 280 pessoas, incluindo aqueles que desistem, que passam pouco tempo. De acordo com padre Haroldo, dos que entram e concluem, geralmente é 30% do grupo. “O primeiro critério para ser acolhida é a pessoa querer, a voluntariedade. Essa adesão voluntária é o primeiro critério. Ele expressa isso escrevendo uma carta de punho”, explica o diretor.
Rotina bem alinhada
A rotina dos acolhidos é estruturada sobre o chamado tripé metodológico da instituição, que é trabalho, convivência e espiritualidade. O dia a dia começa pela manhã com a organização do próprio espaço pessoal, seguida por momentos de oração e celebração da missa. Ao longo da jornada, os residentes realizam atividades de trabalho preparatórias, além de disporem de horários dedicados à prática de esportes, convivência, momentos de lazer e cuidados com a saúde. No período da noite, acontecem os compartilhamento em grupo, como a comunhão de experiências e de vivências internas. “O principal no nosso dia a dia é ser orientado pela palavra de Deus e procurar viver essa experiência no dia a dia, tanto na convivência com as outras pessoas, na própria espiritualidade e também no trabalho, para ocupar a nossa mente e descobrir nossas habilidades. O nosso dia começa geralmente com oração, a limpeza do quarto para deixar tudo em harmonia, e durante o dia temos as atividades laborais, esportes, e à noite, momentos de partilha”.
As atividades de trabalho desempenhadas na fazenda servem para a ocupação da mente e o desenvolvimento de aptidões práticas. Entre as produções internas, têm destaque a fabricação de itens de padaria, como pães e biscoitos, além do doce de leite e da confecção artesanal de vassouras feitas de garrafa PET. A instituição comercializa esses produtos em pontos parceiros e nas portas de igrejas da cidade, como na Catedral Diocesana, na Igreja Nossa Senhora da Saúde e na Igreja de São João Batista, no bairro João XXIII, arrecadando recursos para a manutenção da obra social.
Um novo homem
Além do trabalho cotidiano realizado pela instituição, as histórias de transformação ganham vida por meio daqueles que passaram pelo processo de recuperação, como é o caso do itabirano Tiago Ferreira. Após vivenciar um período difícil marcado pelo alcoolismo e outros vícios, ele encontrou na comunidade o suporte necessário para o seu recomeço. Para Tiago, o tempo vivido no local representou um renascimento ao fornecer ferramentas fundamentais que o ajudam a manter a disciplina, reconstruir sua rotina e preservar o convívio com sua família. “A Fazenda foi para mim o meu segundo nascimento. Ali, a unidade nos dá ferramentas, que é o tripé: convivência, trabalho e espiritualidade. A gente sai, a Fazenda nos dá essas ferramentas, e através delas, a gente acaba traçando um novo trajeto na nossa vida”, encerra.