Por Tatiana Santos
Itabira recebe de 29 de outubro a 1º de novembro, a exposição “Correspondências: memória, imagem e presença” como parte da programação da 6ª edição do Flitabira. A mostra ficará em cartaz na Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), das 8h às 22h (dia 29) e das 8h às 13h (01/11), com entrada gratuita. A iniciativa integra o projeto Memorial Vale Itinerante, iniciativa que mantém ativa a agenda cultural do Memorial Minas Gerais Vale durante as obras de renovação de sua sede na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. O objetivo é aproximar a pesquisa visual e documental das reflexões sobre memória, narrativa e patrimônio histórico.
Idealizada pelo grupo LAVA – Núcleo de Criação e Pesquisa, a exposição é resultado de um trabalho investigativo iniciado em 2022 por Débora Romano, Gabriela Acerbi e João Ferreira a partir do acervo do Museu Histórico Geográfico de Poços de Caldas. O foco recai sobre 10 fotografias produzidas entre 1900 e 1964 que retratam pessoas negras em postos de trabalho, eventos públicos e momentos do dia a dia. Em sua maioria capturadas por fotógrafos brancos e ainda não totalmente catalogadas, essas imagens passam por uma leitura crítica que problematiza os silêncios, as relações de poder e os modos de registro nos arquivos oficiais.
Para ressignificar esses acervos, a mostra apresenta 10 reimpressões digitais das imagens originais acompanhadas por 10 releituras fotográficas ampliadas e 10 cartas narrativas endereçadas às pessoas retratadas. As novas fotografias, criadas com a colaboração de diversos artistas, membros da comunidade e crianças, deslocam os enquadramentos tradicionais e propõem novas formas de representação. Paralelamente, as cartas imaginam trajetórias e legados a partir dos vestígios preservados, conectando passado e presente por meio do diálogo entre fotografia, literatura, cinema e antropologia.

Imersão na ancestralidade
A narrativa expositiva também dialoga com o contexto socio histórico de Poços de Caldas e a urbanização do sul de Minas Gerais no período pós-abolição. Apesar de reconhecida historicamente por suas águas curativas e apelo turístico, a região carrega as marcas da exploração territorial e de estruturas escravistas, sendo a exposição um convite para dar visibilidade à contribuição da população negra na formação do território. Essa experiência e a imersão na ancestralidade são amplificadas pela ambientação sonora assinada por Pedro Henrique Delboni, desenvolvida com relatos da sacerdotisa Mãe Ana de Iansã (do Terreiro do Caboclo Pedra Branca) sobre a compreensão espiritual do tempo, os antepassados e os Pretos Velhos.
De acordo com Wagner Tameirão, gestor do Memorial Vale, a itinerância busca descentralizar as ações do museu e dar espaço a memórias frequentemente invisibilizadas nos registros oficiais. “A exposição Correspondências propõe um olhar atento para histórias que nem sempre receberam o devido reconhecimento nos registros oficiais. Ao aproximar fotografias de arquivo, releituras e cartas, o trabalho cria possibilidades de diálogo com a memória e contribui para reconhecer a presença e o legado da população negra na formação dos territórios”, afirma.