Por Tatiana Santos
A história do Trio Migrazioni é uma conversa sobre pontes culturais que cruzam o Oceano Atlântico, unindo as montanhas de Minas Gerais, o ritmo da Bahia e o cenário artístico da Itália. Idealizado pelo letrista, jornalista e produtor cultural Wir Caetano, e o cantor Antônio Júlio (Toni), ambos monlevadeneses, o projeto começou a ganhar vida em 2020, com o quarteto 4×4. Na época, Wir compunha à distância com o músico baiano Zecrinha, natural de Senhor do Bonfim. A parceria rendeu frutos, e durante a pandemia, impulsionada pela Lei Paulo Gustavo, a gravação de um videoclipe abriu caminhos inesperados. Wir contou a trajetória do trio e os projetos durante o programa Conexão Regional, na Rádio Pontal, na tarde desta terça-feira (14).
Segundo o artista, através de músicos locais, ele foi apresentado ao contato de Toni, radicado em Milão há mais de três décadas. O encontro de canções culminou em 2023, quando Toni retornou ao Brasil para passar férias. “Mandei algumas canções para ele e ele achou super bacanas as músicas. Então, eu falei: ‘Nossa, a gente precisa fazer um trabalho junto’.” Em parceria, os artistas produziram um show em João Monlevade, composto exclusivamente por canções autorais de Wir e Zecrinha. Batizado de Migrações/Migrazioni em alusão à vivência de Toni Júlio na Europa, o espetáculo foi um sucesso, já que a cena cultural local era dominada por apresentações de covers. O impacto positivo motivou a oficialização do Trio Migrazioni em 2024, fundado em Milão por Toni ao lado do instrumentista baiano Kal dos Santos e do jovem violonista clássico italiano Davide Perduca, de 23 anos.
Mapa do Não-Lugar
O trio lançou no último dia 3, o single Mapa do Não-Lugar, numa referência às reflexões do geógrafo brasileiro Milton Santos. “Ele defendia que esses territórios periférico, os países pobres e também os povos pobres, ganhassem mais protagonismo, que eles ganhassem mais voz. Então eu fiz esse conceito do Mapa do Não-Lugar, desses espaços que são apagados e desse esforço de recriar esses lugares”, contou. A letra funciona como um manifesto de resistência e reinvenção desses espaços invisibilizados pela cartografia tradicional. Influenciada pelo ritmo do baião, a canção mostra que não basta apenas reconhecer a exclusão territorial, mas é preciso saber renascer e reconstruir identidades quando ocorrem as dificuldades. O arranjo instrumental dá o tom afirmativo dos versos, colocando na melodia um quê de denúncia e celebração das vozes.
Boicote à indústria fonográfica
Além identidade musical, o Trio Migrazioni chama a atenção pelo posicionamento firme diante da indústria da música, e o grupo optou por não disponibilizar o novo single no Spotify. Eles se juntam a um movimento internacional de protesto contra as políticas da plataforma de streaming: “Vários artistas têm se manifestado contra o Spotify. Uma das razões é que a gente sabe que o presidente executivo do grupo tem investido recursos na indústria bélica e eles pagam extremamente mal os artistas. Com isso, vários têm se afastado dela, em busca de outros espaços. Se os artistas são mal pagos, não faz sentido nenhum”, esclareceu. Para o trio, a música independente deve buscar canais alternativos que valorizem o trabalho artístico e respeitem os direitos dos criadores.
Preocupação com as minorias
Essa postura mostra o compromisso de Wir com as suas origens em um dos bairros mais antigos e humildes de João Monlevade, o Pedreira. “Esse vínculo com o território periférico e aquele território que, em grande parte é invisibilizado, invisível assim na geografia e na história daquele lugar, marca a minha vida. Pensar nesses espaços é também pensar o que é em África, portanto, em migrações e também em refúgio”, avaliou.
Essa preocupação com as pessoas invisibilizadas levou o monlevadense a inspirar um projeto em 2024. Em uma tese acadêmica, ele encontrou nomes de centenas de africanos e afrodescendentes escravizados que ajudaram a construir a cidade. A partir de sua iniciativa, a Fundação Casa de Cultura fez com que alguns desses esses nomes fossem pintados com grafite na Praça do Povo, para que a história dessas pessoas não seja esquecida.