Por Tatiana Santos
A conscientização sobre a saúde preventiva ganha um reforço durante o movimento Julho Verde, mobilização criada para combater o desconhecimento e ampliar as orientações sobre o câncer de cabeça e pescoço. A doença representa um desafio para a saúde no Brasil, onde são registrados aproximadamente 40 mil novos casos a cada ano. O tumor pode acometer toda a cavidade oral, incluindo a língua, o assoalho bucal, a mucosa das bochechas e os lábios, além das glândulas salivares, da orofaringe, da região da garganta e seios da face.
Apesar dos avanços na medicina, o diagnóstico precoce continua sendo o fator mais determinante para o sucesso do tratamento e redução da mortalidade. Quando diagnosticada nas fases iniciais, a doença apresenta altas chances de cura por meio de intervenções pontuais e menos invasivas. Os altos índices acendem o alerta entre os profissionais da área. “Infelizmente, o diagnóstico vem não com o câncer numa fase inicial. Em 80% dos cânceres diagnosticados, a gente faz o diagnóstico e ele já está bem avançado”, explicou o cirurgião-dentista Max Cota, de Itabira, ao destacar a gravidade do problema.
O especialista reforça que a população precisa adotar a prática do autoexame bucal e se atentar a pequenas alterações na rotina. “Nós orientamos para toda ferida que não cicatrize nos primeiros 15 dias, merece uma atenção especial, merece uma busca por um profissional para dar uma avaliada”, explicou, citando ainda sintomas frequentes como manchas esbranquiçadas ou avermelhadas na boca, rouquidão persistente, dor ao engolir e o aparecimento de nódulos no pescoço.
Avaliação clínica detalhada
Diante do surgimento desses sinais, a confirmação do quadro exige uma avaliação clínica realizada por médicos ou estomatologistas, que pedem uma biópsia para a análise de tecidos em laboratório. Caso o diagnóstico seja positivo, a abordagem envolve oncologistas, cirurgiões, dentistas, nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas e fonoaudiólogos. Os profissionais são importantes para garantir não apenas a retirada da lesão, mas também a reabilitação das funções da fala e da deglutição.
A principal ferramenta na luta contra a doença está na eliminação dos fatores de risco. O tabagismo está no topo das causas desses tumores, tendo o consumo excessivo de álcool como um potencializador direto desse risco. Além do fumo, a incidência do vírus HPV frequentemente associado aos tumores de garganta em pacientes mais jovens, a exposição solar constante sem proteção nos lábios e os traumas bucais provocado por dentes fraturados ou próteses mal adaptadas são os principais vilões. Adotar hábitos saudáveis, se vacinar contra o HPV, usar protetor solar labial e procurar assistência imediata ao notar alterações persistentes são os pontos essenciais contra esse câncer. O especialista faz uma convocação, tanto para a população, quanto para as equipes de saúde. “O recado que eu deixo é fugir dos fatores de risco, ficar muito atento a isso, porque acontece e pode acontecer conosco. E não negligenciar feridas na boca que não cicatrizam no período de aproximadamente 15 dias”, concluiu.
Vivendo pela fé
O pastor Giovanni Carvalhais contou que sua experiência com o câncer começou em 2019, aos 52 anos, quando percebeu um pequeno nódulo indolor na glândula parótida direita durante o banho. O diagnóstico confirmou um carcinoma adenoide cístico, um tipo raro de tumor que exigiu cirurgia de remoção. Dezoito meses após o procedimento inicial, a doença recidivou de forma severa, levando a uma complexa cirurgia de nove horas para a remoção do nervo facial direito, o que causou assimetria em seu rosto, além do esvaziamento cervical e de sessões combinadas de radioterapia e quimioterapia. Atualmente convivendo com metástases inoperáveis nos dois pulmões, Giovanni mantém o acompanhamento médico a cada quatro meses e vive a rotina focando no controle de dores, atuando como voluntário na Oncoviva e se dedicando a atividades sociais.
Ao encarar uma das etapas mais severas do tratamento, ele destaca que a transformação em sua visão do mundo e o apoio ao redor foram fundamentais para não desistir. Diante da dor e das incertezas do diagnóstico, ele reforça a importância da empatia, da rede de apoio e da fé para encarar cada etapa da jornada. Para quem atravessa o mesmo desafio, ele aconselha: “Viva um dia de cada vez. Não desista. Encontre pessoas que vão te apoiar, vir com você, te ajudar, porque ninguém sabe qual foi o propósito dessa doença na vida de ninguém. E se o Senhor tem para ti todo esse processo, e ao final dele uma cura para a sua vida, você tem algo lindo para contar e compartilhar”, deixou a mensagem.